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Ouro Mantém-se Acima De US$4.000 Enquanto A Fed Define O Próximo Movimento

Questões-Chave

Os preços do Ouro permaneceram praticamente inalterados nesta quarta-feira, 29 de Julho, enquanto os investidores aguardavam a decisão de política monetária da Reserva Federal dos Estados Unidos e os comentários do presidente da instituição, Kevin Warsh, sobre a inflação e a trajectória das taxas de juro.

O Ouro à vista negociava próximo de 4.029,08 dólares por onça nas primeiras horas da sessão asiática. Os futuros norte-americanos para entrega em Agosto recuavam 0,2%, para aproximadamente 4.028,10 dólares.

Actualizações posteriores da Reuters colocavam a cotação à vista ligeiramente abaixo, em torno de 4.024 dólares, uma diferença que reflecte a movimentação contínua dos preços durante a sessão e não uma divergência entre as fontes. 

A estabilidade aparente esconde uma disputa entre dois factores com efeitos opostos. A nova escalada militar no Médio Oriente estimula a procura por activos de protecção, enquanto a possibilidade de a Fed manter uma orientação monetária mais restritiva aumenta o custo de oportunidade de deter um metal que não paga juros.

A Decisão Pode Ser Menos Importante Do Que A Mensagem

A Reserva Federal deverá anunciar a sua decisão às 18 horas GMT, seguindo-se, meia hora depois, a conferência de imprensa de Kevin Warsh. O calendário oficial da instituição confirma que a reunião decorre entre 28 e 29 de Julho. 

As probabilidades extraídas dos futuros dos fundos federais apontavam para cerca de 70% de possibilidade de manutenção das taxas e aproximadamente 30% para uma subida de 25 pontos-base. O mercado atribuía ainda uma probabilidade superior a três quartos a um aumento em Setembro, segundo o CME FedWatch, ferramenta que transforma os preços dos contratos futuros em expectativas sobre as decisões da Fed. 

Estes números variaram ao longo da semana. O Financial Times observou que a probabilidade de uma subida em Julho tinha aumentado de 13% para 38% no espaço de poucos dias, à medida que a recuperação do petróleo reacendia preocupações sobre uma nova aceleração da inflação norte-americana

Para o Ouro, a diferença entre uma subida e uma manutenção é significativa, mas a orientação transmitida após a reunião poderá ter um peso ainda maior.

Uma manutenção acompanhada por indicações de que a Fed poderá aumentar as taxas em Setembro tende a sustentar os rendimentos das obrigações e o Dólar, limitando a recuperação do metal.

Uma mensagem menos restritiva, reconhecendo a moderação da inflação e a possibilidade de o choque petrolífero ser temporário, poderá reduzir as expectativas de novos aumentos e favorecer o Ouro.

Kelvin Wong, analista sénior da OANDA citado pela Reuters, considera que uma alteração para uma retórica menos restritiva seria o cenário com maior capacidade para inverter o recente comportamento negativo do metal.

Juros Elevados Aumentam O Custo De Manter Ouro

O Ouro não distribui juros, dividendos ou outros rendimentos periódicos. O retorno do investidor depende essencialmente da valorização do preço.

Quando as taxas de juro e os rendimentos das obrigações aumentam, activos como os títulos do Tesouro norte-americano tornam-se relativamente mais atractivos, porque proporcionam uma remuneração financeira. O investidor que mantém Ouro abdica dessa remuneração, aumentando o chamado custo de oportunidade.

O The Wall Street Journal atribuiu a ligeira descida observada no mercado asiático às expectativas de uma política monetária mais restritiva. Segundo o jornal, os investidores antecipam duas subidas das taxas norte-americanas até ao final do ano, cenário que sustenta os rendimentos das obrigações e reduz a procura especulativa por metais sem remuneração. 

A relação torna-se ainda mais forte quando as taxas reais — os juros descontados da inflação — aumentam. Nesse ambiente, a remuneração dos activos financeiros preserva melhor o poder de compra, reduzindo uma das principais vantagens tradicionalmente associadas ao Ouro.

O fortalecimento do Dólar acrescenta uma segunda pressão. Como o metal é cotado na moeda norte-americana, a valorização do Dólar torna a sua aquisição mais cara para investidores que utilizam Euros, Libras, Yens ou moedas de economias emergentes.

O Petróleo Produz Um Efeito Contraditório

A recuperação dos preços do petróleo introduz uma dinâmica menos linear no mercado do Ouro.

Por um lado, energia mais cara pode aumentar a inflação e estimular a procura pelo metal como reserva de valor. Por outro, uma inflação persistentemente elevada pode obrigar os bancos centrais a aumentar os juros, prejudicando o Ouro através do aumento do custo de oportunidade.

É esta segunda interpretação que tem prevalecido em parte das sessões recentes.

O Financial Times assinalou que a subida do petróleo para níveis próximos ou superiores a 100 dólares por barril desencadeou uma venda de obrigações nos principais mercados, elevando os respectivos rendimentos e aumentando as expectativas de maior restrição monetária. 

Consequentemente, uma crise geopolítica que normalmente favoreceria o Ouro pode produzir o efeito contrário quando os investidores concluem que o seu impacto principal será a subida da inflação, das taxas de juro e do Dólar.

O Financial Times observou precisamente que a relação tradicional entre o Ouro e o risco geopolítico se tornou menos previsível durante o conflito com o Irão. O metal chegou a beneficiar da procura por segurança, mas perdeu terreno quando o aumento da energia começou a alimentar expectativas de novos aumentos dos juros. 

Nova Escalada Recupera Parte Da Procura Por Segurança

O mercado permanece, contudo, sensível ao agravamento militar.

Os Estados Unidos anunciaram ter interceptado vários mísseis balísticos lançados pelo Irão contra forças norte-americanas no Médio Oriente. A Guarda Revolucionária iraniana confirmou posteriormente ataques contra uma base aérea e um centro do Comando Central norte-americano na Jordânia.

A notícia interrompeu o alívio observado no início da semana, quando a redução temporária dos confrontos diminuiu a procura por activos defensivos.

Na terça-feira, o Ouro encerrou em 4.036,30 dólares por onça, com uma queda próxima de 1%, enquanto a Prata recuou cerca de 2%. O The Wall Street Journal relacionou esse movimento com a percepção de menor risco de guerra e com o ajustamento das posições antes das decisões dos principais bancos centrais. 

A nova ofensiva impediu uma queda mais pronunciada nesta quarta-feira, mas não foi suficiente para desencadear uma forte valorização. Os investidores evitam assumir posições de maior dimensão antes de conhecerem a decisão da Fed.

Ouro Corrigiu Quase 27% Desde O Máximo De Janeiro

A cotação actual deve ser comparada com a extraordinária volatilidade registada durante o primeiro semestre.

Segundo a London Bullion Market Association, o preço de referência do Ouro atingiu um máximo histórico de 5.501,70 dólares por onça em 29 de Janeiro. Nos cinco meses seguintes, caiu quase 27%, encerrando Junho em 4.026,05 dólares e chegando temporariamente abaixo da barreira de 4.000 dólares. 

O World Gold Council apresenta uma trajectória semelhante. O organismo registou um máximo intradiário próximo de 5.595 dólares em Janeiro e um mínimo inferior a 3.960 dólares no final de Junho. 

O Financial Times qualificou o segundo trimestre como o pior para o Ouro em mais de uma década. A correcção foi atribuída às expectativas de juros norte-americanos mais elevados, ao fortalecimento do Dólar, à redução da procura de investidores de retalho e à saída de capitais de fundos negociados em bolsa associados ao metal. 

Apesar da dimensão da queda, o nível superior a quatro mil dólares continua historicamente elevado. A correcção representa menos o desaparecimento da procura pelo Ouro e mais uma redução do prémio extraordinário incorporado durante a valorização do início do ano.

Commerzbank Reduz Projecção Para O Final Do Ano

A deterioração do ambiente monetário levou o Commerzbank a reduzir para 4.500 dólares por onça a sua previsão para o preço do Ouro no final de 2026.

A instituição projecta igualmente que a Prata termine o ano em aproximadamente 67 dólares por onça. Na sessão desta quarta-feira, a Prata avançava 0,9%, para 57,65 dólares, enquanto a Platina subia 0,3%, para 1.600,40 dólares. O Paládio recuava 0,7%, para 1.261 dólares.

Uma sondagem da Reuters junto de 29 analistas produziu uma previsão mediana de 4.509 dólares para a média do Ouro em 2026, abaixo dos 4.916 dólares estimados na consulta anterior. Para 2027, a mediana foi reduzida de 5.100 para 4.610 dólares por onça. 

As revisões mostram que o mercado deixou de projectar uma continuação automática da subida iniciada em 2025. A trajectória dependerá da política monetária norte-americana, dos fluxos para fundos de investimento, da evolução do Dólar e da procura dos bancos centrais.

Bancos Centrais Formam Uma Base Estrutural De Procura

Embora os investidores financeiros tenham reduzido posições, as autoridades monetárias continuam a desempenhar um papel estabilizador.

O World Gold Council estima que os bancos centrais compraram, em termos líquidos, cerca de 244 toneladas de Ouro durante o primeiro trimestre de 2026, um volume superior ao do trimestre anterior e à média dos últimos cinco anos. 

No seu inquérito de 2026, o organismo concluiu que 89% dos bancos centrais esperam que as reservas oficiais mundiais de Ouro aumentem durante os 12 meses seguintes. Uma percentagem recorde de 45% declarou esperar aumentar as reservas da própria instituição. 

As razões incluem diversificação das reservas, redução da dependência do Dólar, protecção contra riscos geopolíticos, inexistência de risco de crédito e elevada liquidez internacional.

Nos últimos quatro anos, as compras anuais dos bancos centrais situaram-se, em média, próximas de mil toneladas, aproximadamente o dobro da média observada na década anterior. 

Este padrão ajuda a explicar por que razão as correcções do Ouro encontram procura mesmo quando os investidores privados reduzem a exposição.

Preços Elevados Reduzem A Procura De Joalharia

O suporte institucional não elimina a perda de procura em outros segmentos.

O World Gold Council calcula que a procura total, incluindo transacções fora de bolsa, aumentou 2% no primeiro trimestre, para 1.231 toneladas. Contudo, a forte valorização do preço fez o valor financeiro dessa procura subir 74%, para um recorde de 193 mil milhões de dólares. 

A procura de barras e moedas atingiu 474 toneladas, impulsionada sobretudo por investidores asiáticos. Em contrapartida, os preços recorde reduziram a compra de joalharia, uma vez que famílias e fabricantes passaram a necessitar de mais recursos para adquirir a mesma quantidade física de metal.

A Reuters antecipa que esta fraqueza poderá persistir nos grandes mercados consumidores, particularmente na Índia e na China, condicionando a velocidade de uma eventual recuperação. 

Para Moçambique, A Oscilação Também Afecta As Reservas

A evolução do Ouro possui igualmente implicações para o balanço do Banco de Moçambique, onde o metal integra os activos de reserva e está sujeito a reavaliação.

As demonstrações financeiras intercalares do banco central mostram que, no primeiro semestre de 2026, as reservas de reavaliação do Ouro registaram um ajustamento negativo de aproximadamente 2,592 mil milhões de Meticais.

Esse movimento contribuiu para que o rendimento integral permanecesse negativo, apesar do lucro líquido apresentado pela instituição.

A ligação não significa que o banco central tenha vendido o metal ou realizado uma perda financeira equivalente. Uma reavaliação reflecte a alteração do valor contabilístico do activo devido ao preço internacional e à taxa de câmbio utilizada.

Quando o Ouro valoriza, pode aumentar o valor das reservas e fortalecer o balanço. Quando recua, produz o efeito contrário. Esta volatilidade demonstra por que razão o desempenho das reservas internacionais deve ser analisado numa perspectiva plurianual e não apenas através de um semestre.

Três Variáveis Definirão A Próxima Direcção

A decisão da Fed abrirá três cenários principais para o Ouro.

Uma subida imediata de 25 pontos-base poderá fortalecer o Dólar, elevar os rendimentos das obrigações e pressionar o metal para níveis inferiores aos quatro mil dólares.

Uma manutenção acompanhada por uma orientação restritiva poderá limitar uma recuperação e conservar os preços dentro do intervalo recente, enquanto o mercado transfere a expectativa de aumento para Setembro.

Uma mensagem menos agressiva, indicando preocupação com o crescimento económico ou maior confiança na moderação da inflação, poderá reduzir os rendimentos e favorecer uma valorização do Ouro.

A trajectória também dependerá do conflito no Médio Oriente. Uma interrupção relevante dos fluxos petrolíferos poderá intensificar simultaneamente a procura por segurança e as expectativas inflacionárias, obrigando o mercado a avaliar qual dos dois efeitos terá maior força.

A estabilidade observada nesta quarta-feira não significa equilíbrio definitivo. Representa uma pausa antes de uma decisão capaz de alterar o Dólar, as taxas de juro, as obrigações e os metais preciosos num intervalo de poucos minutos.

Fonte: O Económico

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