Resumo
A economia moçambicana começou 2026 com um crescimento praticamente estagnado, devido à queda de 21,6% na produção mineira, levando o PIB a crescer apenas 0,1% no primeiro trimestre, segundo dados do INE. O sector terciário cresceu 3,5%, enquanto o secundário expandiu 3,2%, contrariando a contração de 4,8% no sector primário. A dependência da exploração de recursos naturais é evidente, com a mineração a limitar o crescimento global. O Banco de Moçambique vê uma trajetória de recuperação frágil, impulsionada pelo consumo privado e pela recuperação do comércio e serviços, mas com vulnerabilidades internas persistentes. O FMI e o Banco Mundial defendem a diversificação da economia moçambicana, destacando a necessidade de reduzir a dependência dos projetos extractivos e promover setores como a agricultura e a indústria transformadora. A recuperação económica permanece incerta, apontando para a necessidade de uma economia mais resiliente e geradora de emprego e valor para a população.
A economia moçambicana iniciou 2026 com um crescimento praticamente estagnado, reflectindo o peso que a indústria extractiva continua a exercer sobre o desempenho económico do país. Dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre do ano, resultado fortemente condicionado pela queda de 21,6% da produção mineira em relação ao mesmo período de 2025.
Segundo o relatório das Contas Nacionais Trimestrais, a contracção da actividade mineira levou o sector primário a registar um recuo de 4,8%, anulando parte dos ganhos observados nos sectores dos serviços e da indústria transformadora. Em sentido contrário, o sector terciário cresceu 3,5%, impulsionado pelas actividades de hotelaria e restauração, comércio e reparação, transportes, comunicações e serviços financeiros, enquanto o sector secundário registou uma expansão de 3,2%, sustentada pela manufactura, construção e produção de energia.
Os números evidenciam a elevada dependência da economia moçambicana da exploração de recursos naturais. Apesar da agricultura ter registado um crescimento de 2,2% e a pesca de 0,9%, o desempenho negativo da mineração foi suficiente para limitar o crescimento global da economia, demonstrando que oscilações na produção extractiva continuam a ter um impacto desproporcional sobre o PIB nacional.
O Banco de Moçambique considera que a economia continua numa trajectória de recuperação, embora frágil. A instituição destaca que o crescimento observado no primeiro trimestre foi impulsionado sobretudo pelo aumento do consumo privado e pela recuperação gradual das actividades ligadas ao comércio e aos serviços, mas reconhece que persistem importantes vulnerabilidades internas, agravadas por choques climáticos, limitações logísticas e constrangimentos estruturais.
A desaceleração da mineração surge num contexto em que o país procura recuperar dos efeitos da recessão provocada pela crise pós-eleitoral de 2024 e pelos impactos das cheias que afectaram a produção agrícola e as infra-estruturas no início do ano. O Governo tinha projectado um crescimento de cerca de 0,5% para o primeiro trimestre, estimando uma recuperação gradual da actividade económica, mas alertando para a persistência de riscos internos e externos.
Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o desempenho económico recente reforça a necessidade de acelerar a diversificação da economia moçambicana. Num estudo publicado este ano, a instituição defende que o actual modelo de crescimento continua excessivamente dependente de grandes projectos extractivos, que geram elevado investimento e receitas de exportação, mas criam relativamente poucos empregos e têm reduzido efeito multiplicador sobre os restantes sectores produtivos. O FMI considera que a agricultura, a indústria transformadora e o sector privado nacional devem assumir um papel mais relevante na estratégia de crescimento do país.
O Banco Mundial partilha preocupações semelhantes. Nas suas mais recentes perspectivas económicas para Moçambique, a instituição alerta que o crescimento continuará vulnerável às flutuações da indústria extractiva, aos choques climáticos e às pressões fiscais, defendendo reformas que promovam maior diversificação produtiva, reforcem a competitividade das empresas e reduzam a dependência dos megaprojectos.
Embora a economia tenha regressado ao crescimento após quatro trimestres consecutivos de contracção, os dados do primeiro trimestre mostram que a recuperação permanece ténue. Para economistas, o desempenho evidencia que o desafio de Moçambique não passa apenas por recuperar os níveis de crescimento anteriores, mas por construir uma economia menos vulnerável às oscilações da indústria mineira e mais capaz de gerar emprego, rendimento e valor acrescentado através de sectores com maior impacto sobre a população.




