Quando fui convidado a ir ao lançamento do novo Clio, disse imediatamente (e isto inclui uma conversa com o diretor de design responsável pelo projeto) que este era o Clio menos Clio de todo o sempre. O design mudou completamente e até o próprio carro parecia ter uma outra aura; de facto, parecia um automóvel de um segmento superior.
Algo muito estranho, porque o Renault Clio, até ali, era o carro mais vendido na Europa. Por isso, achei que fazia pouco sentido mudar uma fórmula vencedora.
Mas, apesar do facto de o Renault Clio de nova geração não ser do agrado de todos, parece-me que está a crescer, especialmente agora que começa a aparecer nas estradas um pouco por todo o lado. Ainda assim, na versão mais apetrechada e mais interessante do Renault Clio, existe um problema muito grave, e está relacionado com a motorização.
Calma, não são problemas mecânicos. Já tive a oportunidade de o ensaiar, e é um carro que responde muito bem.

Infelizmente, os impostos portugueses destroem completamente a versão Full Hybrid, que começa nos 28.990€. Tudo isto graças à fiscalidade portuguesa, que castiga (muito) a motorização 1.6 que a Renault decidiu meter no seu melhor Clio.
Algo ainda mais estranho do que mudar completamente o design de um carro que vendia que nem pãezinhos quentes. Visto que esta motorização é bastante mais poupada no consumo de combustível, e também é bastante mais “verde” do que outras baseadas em motores mais pequenos.
No fim do dia, o novo Clio é um carro incrível, mas quase 29 mil euros? É uma missão que a Renault Portugal sabe que está perdida. Aliás, é exatamente por isso que a motorização Full Hybrid do Renault Clio só existe na versão esprit Alpine, que é a mais equipada.

Portanto, a explicação para este valor absurdo resume-se a uma palavra: ISV (Imposto Sobre Veículos). E é aqui que a legislação portuguesa mostra o quão ultrapassada e ridícula consegue ser nos tempos que correm.
Afinal de contas, em Portugal, o cálculo do ISV não olha apenas para o que o carro deita pelo tubo de escape. Continua obstinado em olhar para a cilindrada do motor.
Ou seja, a versão normal a gasolina do Clio usa um pequeno motor 1.0 TCe de 1000cc. Assim, como a cilindrada é baixa, paga uma pechincha de ISV (pouco mais de 250€). Mas a versão Full Hybrid (E-Tech), que é a mais eficiente e amiga do ambiente, utiliza um motor atmosférico de 1.6 litros (1600cc) para trabalhar em conjunto com o sistema elétrico.

O resultado desta audácia de meter um GIGANTE motor? Apesar de o híbrido ter emissões de CO2 muito mais baixas e consumos baixíssimos em cidade, o Estado português cobra mais de 4000€ em ISV. Ou seja, 3838€ e depois ainda leva com o IVA em cima (23%). Tudo isto devido ao tamanho do motor. Sim, pagas um imposto sobre outro imposto.
Infelizmente, é este paradoxo que mata o carro no nosso mercado. A versão mais ecológica paga praticamente 10 vezes mais imposto do que a versão a gasolina. Em Espanha, por exemplo, onde a cilindrada não entra para a equação e apenas contam as emissões, este mesmo Clio Híbrido custa uma fração do valor e vende-se como pães quentes.
É uma pena ver o mercado português a deixar um ótimo carro de lado, porque… Impostos sem sentido.
Fonte: Zero Zero


