InícioRevistaInternacional«Farioli? Afinal um treinador jovem pode ser campeão em Portugal...»

«Farioli? Afinal um treinador jovem pode ser campeão em Portugal...»

João Nuno Fonseca e Francesco Farioli cruzaram-se entre 2015 e 2017 na Aspire Academy (Qatar). O técnico português recorda o período em que ambos escreviam para o blogue do iScout e fala sobre a forma como o italiano conseguiu chegar ao FC Porto e ter sucesso na época de estreia.

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Maisfutebol (MF): Na passagem pelo Qatar, mais concretamente pela Aspire Academy, trabalhou com Francesco Farioli. Como foi essa experiência?

João Nuno Fonseca (JNF): Ao Farioli foi dada uma oportunidade que acho que quando se toma a decisão de ser treinador principal, é necessário estar no sítio certo e no momento certo. Ele vai para uma realidade de Turquia, num clube que estava à espera de se afirmar e que foi destemido e ousado na escolha. Na escolha de alguém que pensava o jogo e analisava os jogos. Não é por ser treinador de guarda-redes que deixas de ser treinador. Tu és treinador. Tens é a especificidade de guarda-redes. É a mesma coisa de um treinador-adjunto, não é um adjunto, é um treinador.

MF: (...)

JNF: Agora, com determinadas responsabilidades que são inerentes àquilo que é o seu trabalho e que são definidas pelo treinador principal. Recordo-me que tanto eu como ele estávamos muito ligados àquilo que era a análise de jogo. Gostávamos muito de tudo que se podia fazer com vídeo para se mostrar, corrigir e discutir. Eram motivos de conversa. Colaborámos ao mesmo tempo com um blogue que o iScout tinha na altura e que tinha artigos de opinião. Chegámos a um momento em que a Aspire Academy diz que não podíamos fazer mais colaborações com ninguém. Tivemos de encerrar as coisas e respeitar a decisão da instituição que nos empregava. Na altura, para mim, teve impacto no City Football Group, para o Farioli teve com toda a questão de Roberto de Zerbi.

MF: Ficaste surpreendido com o sucesso de Farioli no FC Porto na época de estreia?

JNF: Posso-te dizer que não fiquei surpreendido. Fiquei muito contente por um treinador jovem, com ideias positivas, com ideias inovadoras… acabou por encaixar numa estrutura que se soube reestruturar para ter rendimento e que necessitava de títulos. O FC Porto tem muito mérito, com aquilo que foi feito pelo presidente André Villas-Boas, que foi alguém que passou por diferentes contextos ao longo da sua vida e que trouxe todo esse conhecimento para o que era a necessidade do clube naquele momento. O FC Porto necessitava dessa reestruturação, desse pensar de rendimento imediato, coisa que já não acontecia há algum tempo (ganhar a Liga). As peças acabaram por se encaixar na perfeição e fico extremamente contente por ver que afinal é possível que um treinador jovem seja campeão em Portugal. Com todo o respeito por imensos treinadores de diversas idades, acho que o difícil é não se apostar no treinador jovem, o difícil é mostrar que o treinador jovem também é capaz de ser ousado e capaz de ter ideias frescas para aquilo que é um campeonato como o nosso.

MF: Durante muito tempo, falou-se que o FC Porto não jogava bem, mas ganhava. Concorda com essa ideia?

JNF: Primeiro é importante perceber o que é jogar bem. Se perguntarmos a um adepto do FC Porto, do Benfica ou do Sporting, temos de perceber qual é a definição de cada um. Para mim, jogar bem é ganhar. Para mim, jogar bem é ter os três pontos, mesmo que seja por 1-0. Isso é jogar bem. Agora, a forma como tu queres jogar bem é que depende muito do que são as tuas ideias como treinador. A minha é clara, ter a intenção de dominar o jogo. Domínio do que são os componentes. Sermos dominadores com bola e, ao mesmo tempo, sem bola dominar o adversário. Conseguires levar o adversário para onde queres. Não defender por defender e não teres as linhas bem montadas, estares fechadinho e tentares organizar a equipa para a bola não te entrar. Há estas componentes todas que todos nós temos de saber definir. Por isso é que tem de se saber falar cada vez mais no jogo.

MF: (...)

JNF: O que é jogar bem? É ter mais posse? É ter menos posse ser eficaz nas transições ofensivas? Há muita diferenciação e, se calhar, muita dificuldade das pessoas em dizer o que é jogar bem. Acredito piamente que há diferentes momentos na época onde consegues ser mais igual a ti próprio enquanto equipa, sobretudo em termos de não exigência máxima na dimensão física. Uma coisa é jogares ao domingo, quarta e sábado, outra é jogares ao domingo e ao sábado. Esta exigência e condensação leva-te a um desgaste físico dos jogadores, onde ao longo da época não consegues sempre ter o domínio da bola e do jogo. Tens de criar estratégias que te permitam ganhar mais vezes. Esse é aquele trabalho que o treinador tem e que não é visível aos olhos de toda a gente.

MF: Qual foi o segredo para o sucesso do FC Porto na última edição da Liga. A abordagem do clube em ambos os mercados?

JNF: Para mim, acho que os alvos estão muito bem identificados. Tem uma capacidade de olhar, dentro do que é a filosofia de jogo, dentro da dimensão clara de se jogar e contratar para as posições e fazer esse tipo de perfil. Para mim há um momento crucial, que é a entrada do Fofana na equipa, assim como o Thiago Silva. Essas contratações trazem ao FC Porto uma maturidade, não só física, mas também emocional no jogo e que são determinantes nos momentos cruciais da época. Fazem disto o FC Porto dominador, que ganhou nos momentos certos e que trouxe à equipa esta serenidade que é necessária e com resultados. Porque depois os resultados vão sendo consequência, tu vais ganhando mais vezes do que os outros e vais tendo mais pontos do que os outros. Fruto desta visão de André Villas-Boas, que a ganhou enquanto treinador. Já não se vai ao mercado buscar qualquer coisa, vai-se buscar este jogador que necessitamos. Acho que isso faz toda a diferença. Teres alguém conhecedor das necessidades da equipa e do treinador.

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Fonte: TVI

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