Resumo
João Nuno Fonseca deixou o Nantes para regressar a Portugal e assumir um novo desafio no Benfica, trabalhando na Academia do Seixal. Destacou o talento de jogadores como Tomás Araújo, António Silva e Paulo Bernardo, comparando este último a Rui Costa. Fonseca elogiou a estrutura do Benfica e a evolução dos jogadores, salientando a importância do trabalho de formação em Portugal para o sucesso da Seleção Nacional. Reconheceu o potencial de vários jogadores, incluindo aqueles que não atingem os níveis mais altos, como o caso de Paulo Bernardo, que considera excecional.
Entre diversos nomes, o de Paulo Bernardo saltou-lhe à vista desde cedo e para além de lhe deixar rasgados elogios, pelo «nível técnico e refinamento», confessa ter bastantes semelhanças com Rui Costa.
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Maisfutebol (MF): Entre 2019 e 2021 passou pelos escalões de formação do Benfica. Como foi a adaptação a um contexto bastante diferente, num clube «grande» de Portugal?
João Nuno Fonseca (JNF): Tive a sorte de poder ter treinado jogadores que hoje em dia valem milhões. O facto de ter tido essa oportunidade e essa vontade de também, como eles, crescer relembro com muita saudade. Fui para um Benfica estruturado, que tinha tudo muito bem pensado, desde os escalões mais de base até à equipa B. Uma metodologia que facilita aquilo que é a evolução do jogador no contexto. Quando isso existe, quando a estrutura facilita para que todos (jogadores e treinadores) estejam mais próximos de ganhar títulos, acho que toda a gente sai valorizada. Não só no Benfica, mas também em vários clubes de Portugal, estamos a ter esse sucesso.
MF: (...)
JNF: É fruto disso que temos a Seleção que temos hoje. Essa competitividade nas posições da nossa Seleção é fruto de muitos trabalhos e bons trabalhos que se fazem por este país fora, com os treinadores de formação, que muitas vezes não são devidamente valorizados.
MF: Durante esse período treinou jogadores como António Silva e Tomás Araújo, duas peças fundamentais na equipa principal do Benfica. Já vias neles essa capacidade de se afirmarem desta forma?
JNF: O Tomás Araújo, o António Silva, o João Ferreira, o Paulo Bernardo, o Gonçalo Ramos, o Tiago Dantas… Tudo jogadores com uma qualidade fantástica. Estamos a falar de internacionais nos escalões de formação. São jogadores de alto nível e alto potencial. Nem todos vão chegar a níveis de elevada performance, há jogadores que vão ficando em divisões que não atingem uma Liga Europa ou uma Liga dos Campeões. Não deixam de ser jogadores com elevado potencial. Muitas vezes os contextos e pelo momento da época em que é, não se conseguem afirmar.
MF: (...)
JNF: Dou-te o caso do Paulo Bernardo. Para mim, está no meu “top-3” de jogadores que consegui, na formação, ver que era um jogador excecional. Um nível técnico, um refinamento, a fazer lembrar Rui Costa. Digo isto muitas vezes: o Paulo cria tempo para a equipa ter tempo com bola. Na altura ter visto que o Paulo não teve essa oportunidade, dentro do contexto e momento do Benfica, fiquei um bocado triste. Via no Paulo alguém que, efetivamente, vai ter oportunidade para mostrar o potencial, não apenas no Celtic, mas por essa Europa fora. Os clubes, se estiverem atentos, vão contratar.

MF: Paulo Bernardo teve uma presença muito vincada nos escalões jovens da Seleção Nacional. O que lhe falta para essa chamada à Seleção A?
JNF: Temos tanta qualidade e tantos médios, acredito que se vá muito pelo detalhe e pela intenção que se quer. Se o Paulo tivesse a mesma oportunidade que foi dada ao João Neves, se calhar teríamos o Paulo com o João, o Vitinha e o Bruno. Acho que depende muito do momento e da oportunidade. Vais para contextos onde não tens tantas vezes a bola como necessitas, isso vai diminuir-te a capacidade de olhares para aquela equipa ou aquele jogador e dizeres: eu pegava neste jogador e colocava-o na minha equipa. Se eu for para uma equipa e possa escolher, eu vou buscar o Paulo. Não tenho dúvidas nenhumas de que o Paulo, dentro do que é a minha intenção de jogar, vai encaixar na perfeição. Foi um dos jogadores que me marcou imenso, por isso é que te dou o nome dele. Gosto muito dele, não só como pessoa, mas como jogador também.
MF: (...)
JNF: O Tiago Gouveia é outro jogador que ainda não foi dada a devida oportunidade, como teve no Estoril, por exemplo. Dando essa oportunidade e esse tempo, o Tiago vai ser, na mesma linha, um extremo que vai desequilibrar e criar inúmeras oportunidades. É o tipo de extremo que o Benfica necessita. É um jogador que pode fazer a diferença, tanto na direita como na esquerda. Tem uma coisa muito importante, a capacidade de ele pensar o jogo como um coletivo e não como um só. Sabe o que tem de fazer sem bola, questiona o treinador. Teres este tipo de mentalidade é meio caminho andado para retirar o potencial desse jogador mais rapidamente.
MF: Como era a ligação entre o Seixal e a equipa principal do Benfica na altura em que esteve no clube?
JNF: Sempre senti aposta, mas não naquela magnitude que esperaríamos. O Benfica quer títulos, o Benfica quer ganhar todos os jogos. No Benfica ganha-se, não se perde. Se perdes mais vezes ou empatas mais vezes, vais ter de ir aos recursos que não são da formação. Sou apologista e isso vê-se. Nós fomos, com o Leixões, jogar ao Seixal na segunda jornada e, em termos estratégicos, tu vais jogar contra uma equipa que tem uma maturidade superior a uma equipa como o Leixões. Passamos muito mais tempo sem bola do que eu queria. Era natural isso, são jogadores que jogam há muito tempo juntos. São jogadores que são extremamente bem treinados pelo Nélson Veríssimo, que conhece a real necessidade da II Liga e o que se tem de fazer para chegar à Primeira Liga.
MF: Passou por diversos contextos ao longo da tua carreira. Qual foi o jogador que mais gostaste de treinar?
JNF: Isso é uma pergunta muito difícil. O Hugo gostei, porque o Hugo estava numa fase que vinha de um empréstimo para se afirmar no Stade Reims, na altura. Inclusive tive algumas conversas com ele, fruto daquilo que foi a minha experiência no Benfica, e expliquei-lhe o porquê dos jogadores como o Gonçalo (Ramos), o Tomás (Araújo), em que a expectativa é extremamente alta, mas há que fazer um percurso para se chegar efetivamente a ser jogador da Liga dos Campeões. Ele teve alguns períodos com algumas debilidades físicas, e passámos algum tempo a falar e a tentar também acompanhar o jogador nesse sentido, porque é sempre importante o jogador sentir-se acarinhado.
MF: (...)
JNF: O Hugo é um jogador fisicamente muito fininho, muito. Tem uma qualidade técnica, é muito refinado, tem pormenores deliciosos. Já falámos do Benfica, mas ainda não te falei deste jogador, que o contexto também não o favoreceu nada, mas adorei treiná-lo. O sueco Jens Cajuste. É um jogador de dimensão Liga Inglesa e alguém que passou um bocadinho pelo que passou o Paulo Bernardo. O contexto não favoreceu aquilo que são as suas capacidades técnicas. A dimensão dele no meio-campo é notável.
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Fonte: TVI






