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Carreiras Não Estão a Morrer; Estão a Tornar-se Menos Lineares

A inteligência artificial, as plataformas digitais e a mudança das competências estão a alterar a forma como se trabalha, se aprende e se cria valor. Mais do que o fim do emprego, o desafio está na transição para trajectórias profissionais mais adaptáveis, qualificadas e capazes de combinar conhecimento, tecnologia e iniciativa.

A ideia de uma carreira linear — estudar, conseguir um emprego estável, subir gradualmente na hierarquia, reformar-se com segurança — está a perder parte da força que teve durante décadas. Não porque o emprego tenha deixado de ser importante, nem porque todas as profissões estejam condenadas a desaparecer, mas porque a economia passou a exigir outro tipo de adaptação, aprendizagem e capacidade de criar valor.

Num ensaio publicado este ano, o escritor Thomas Oppong apresenta uma provocação directa: a lógica tradicional da carreira já não oferece, por si só, a segurança que muitas pessoas imaginavam ter. O autor defende que profissionais devem aprender a transformar conhecimento, experiência e competências em activos que possam ser distribuídos, replicados e valorizados para além do tempo vendido a um único empregador.

A provocação merece atenção, mas também exige algum cuidado. Dizer que “as carreiras estão a morrer” pode ser excessivo. O que está em causa não é o desaparecimento generalizado do trabalho, mas a transformação acelerada das tarefas, das qualificações e das relações entre trabalhadores, empresas e tecnologia.

A carreira do futuro será, provavelmente, menos parecida com uma escada e mais próxima de uma trajectória feita de aprendizagem contínua, mudança de funções, actualização de competências, colaboração com tecnologias inteligentes e, em alguns casos, criação de projectos próprios.

 A Inteligência Artificial Está a Mudar Tarefas, Não Apenas Empregos

O debate sobre inteligência artificial tornou-se frequentemente dominado por duas visões extremas: de um lado, a ideia de que a tecnologia eliminará empregos em massa; do outro, a crença de que nada de relevante mudará.

A realidade é mais complexa. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à inteligência artificial generativa. Contudo, a OIT sublinha que o efeito mais provável será a transformação do trabalho, e não a substituição integral dos trabalhadores. Em muitas actividades, a tecnologia poderá automatizar parte das tarefas, aumentar produtividade ou alterar a forma como os profissionais trabalham, sem eliminar necessariamente a necessidade de julgamento humano, responsabilidade, criatividade e contacto directo.

Este ponto é decisivo. Uma profissão não é apenas um conjunto de tarefas repetitivas. Um contabilista não se limita a organizar documentos; interpreta informação, aconselha clientes e assume responsabilidade profissional. Um jornalista não se limita a escrever textos; investiga, selecciona factos, contextualiza acontecimentos e responde pela credibilidade do que publica. Um professor não apenas transmite conteúdos; acompanha alunos, interpreta dificuldades e constrói processos de aprendizagem.

A inteligência artificial pode acelerar tarefas, organizar informação, apoiar pesquisas, automatizar processos e melhorar a produtividade. Mas a sua utilização eficaz dependerá cada vez mais de pessoas que saibam fazer boas perguntas, validar resultados, compreender contextos, tomar decisões e responder pelas consequências das escolhas feitas.

O Emprego Não Desaparece, Mas Deixa de Ser Uma Garantia Automática

O Fórum Económico Mundial estima que a transformação tecnológica, demográfica, económica e geopolítica poderá criar 170 milhões de novos empregos e deslocar 92 milhões até 2030, resultando num saldo líquido positivo de 78 milhões de postos de trabalho. Trata-se de uma projecção baseada em expectativas de empregadores, não de uma previsão inevitável, mas mostra a escala da mudança em curso.

O ponto mais relevante não é apenas quantos empregos serão criados ou eliminados. É saber que tipo de empregos surgirão, quem estará preparado para os ocupar e que trabalhadores terão condições para fazer a transição.

Funções associadas a dados, inteligência artificial, cibersegurança, desenvolvimento tecnológico, energias renováveis, gestão de sistemas, logística inteligente e serviços digitais tendem a ganhar importância. Ao mesmo tempo, competências humanas como pensamento analítico, criatividade, capacidade de adaptação, liderança, comunicação, curiosidade e aprendizagem contínua tornam-se mais valiosas.

Segundo o Fórum Económico Mundial, competências ligadas à inteligência artificial, dados, literacia tecnológica, pensamento criativo, resiliência e flexibilidade deverão ganhar peso significativo nos próximos anos. A transformação tecnológica não reduz, portanto, a importância das pessoas; aumenta a importância de trabalhadores capazes de combinar conhecimento técnico com discernimento humano.

A questão é que esta adaptação não pode ser deixada apenas ao indivíduo. Empresas, escolas, universidades, instituições de formação e políticas públicas terão de assumir responsabilidade mais activa na preparação de trabalhadores para uma economia em mudança.

Do Tempo Vendido ao Conhecimento Aplicado

A ideia de “transformar-se num produto”, defendida por Thomas Oppong, pode parecer desconfortável à primeira vista. Mas, no essencial, trata-se de reconhecer que conhecimento especializado pode ser organizado e partilhado de formas que ultrapassam a relação tradicional entre trabalhador e empregador.

Um especialista pode converter experiência em metodologias, manuais, consultoria, produtos digitais, programas de formação, conteúdos técnicos, ferramentas, investigação ou soluções empresariais. Um professor pode ampliar o seu impacto através de materiais de aprendizagem. Um profissional de saúde pode desenvolver conteúdos de educação preventiva. Um técnico agrícola pode criar modelos de assistência ou plataformas úteis para produtores.

Isto não significa que todos tenham de abandonar o emprego formal, tornar-se empresários digitais ou transformar a sua vida numa marca pessoal. O emprego continuará a ser uma fonte central de rendimento, aprendizagem, segurança e integração social. E muitas actividades essenciais — da agricultura à saúde, da indústria à educação, da construção à logística — dependerão sempre de trabalho directo, equipas e organizações.

A mudança está em reconhecer que a segurança profissional dependerá menos de um único cargo e mais da capacidade de actualizar competências, construir reputação, resolver problemas e criar valor em diferentes contextos.

Moçambique Enfrenta uma Dupla Transição

Para Moçambique, esta transformação coloca um desafio particular. O País precisa, ao mesmo tempo, de criar empregos para uma população jovem e de preparar trabalhadores para uma economia cada vez mais digital, automatizada e exigente em competências.

Um estudo do Banco Mundial e da IFC sobre procura de competências digitais na África Subsaariana estima que, até 2030, entre 20% e 25% dos empregos em Moçambique poderão exigir algum nível de competência digital. A maioria dessa procura deverá estar ligada a competências básicas e intermédias, e não apenas a profissões altamente especializadas em tecnologia.

Isto significa que a literacia digital não deve ser tratada como uma competência exclusiva de programadores, engenheiros ou especialistas em informática. Ela será necessária para comerciantes, gestores, agricultores, técnicos de manutenção, trabalhadores de logística, profissionais de saúde, funcionários públicos, professores e pequenas empresas.

Uma microempresa que sabe usar plataformas digitais para vender, comunicar com clientes, gerir pagamentos e controlar stock pode tornar-se mais produtiva. Um agricultor que recebe informação sobre preços, clima, insumos e mercados pode tomar melhores decisões. Um jovem com competências básicas de comunicação digital, análise de dados e ferramentas de produtividade pode aumentar as suas possibilidades de inserção profissional.

O risco é que a transição avance de forma desigual. Quem tiver acesso a conectividade, formação, equipamentos e redes de oportunidade poderá adaptar-se mais rapidamente. Quem permanecer excluído desses recursos poderá enfrentar uma nova forma de marginalização económica.

Formação Deve Deixar de Ser Uma Etapa e Tornar-se um Processo

A resposta não pode ser apenas criar mais cursos de tecnologia. É necessário repensar a formação como processo contínuo.

As escolas devem reforçar competências fundamentais: leitura, raciocínio, matemática, comunicação, resolução de problemas, criatividade e ética. A formação técnico-profissional deve aproximar-se mais das necessidades das empresas, incorporando automação, tecnologias de informação, manutenção de equipamentos modernos, gestão digital e novas exigências de qualidade.

As empresas, por sua vez, terão de investir mais na actualização dos seus trabalhadores. Não basta adquirir sistemas digitais ou ferramentas de inteligência artificial. É necessário preparar equipas para utilizar essas ferramentas com responsabilidade, eficiência e capacidade crítica.

A tecnologia pode reduzir tarefas repetitivas, mas também pode criar espaço para actividades de maior valor: atendimento mais qualificado, análise de informação, inovação, personalização de serviços, desenvolvimento de produtos e tomada de decisões mais informadas.

A Nova Carreira Será Construída com Mais Autonomia, Mas Também com Mais Responsabilidade

A carreira do futuro poderá oferecer maior liberdade para alguns profissionais, sobretudo os que conseguirem combinar competências técnicas, redes de colaboração, reputação e capacidade de criar soluções próprias. Mas essa liberdade não será automática, nem igualmente acessível a todos.

É por isso que o discurso sobre “independência profissional” precisa de ser acompanhado por políticas de inclusão, acesso à formação, conectividade, financiamento e protecção social. Não basta dizer às pessoas que devem reinventar-se; é preciso criar condições para que possam fazê-lo.

O trabalho continuará a ser central nas sociedades. O que muda é a forma como o valor será criado, distribuído e reconhecido. A carreira deixará de depender apenas de um título, de uma empresa ou de uma promoção. Passará a depender, cada vez mais, da capacidade de aprender, adaptar-se, colaborar com tecnologia e construir relevância numa economia em permanente transformação.

O futuro do trabalho não será definido apenas pela inteligência artificial. Será definido pela forma como os países, as empresas e os trabalhadores decidirem usar essa inteligência para criar mais produtividade, mais oportunidades e empregos de melhor qualidade.

Fonte: O Económico

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