Estávamos a escassos minutos do início do jogo. Olhar em frente, para os lados ou para trás era igual. Ia dar à mesmíssima coisa.
«Cara, isso é impressionante: flamenguista anda por todo o lado. Seja, aqui em Portugal, em Espanha, em França. O cara pode nem acreditar, mas, até na Tailândia, eu olhei para o lado, tinha feito milhares e milhares de quilómetros, 4000 ou mais, estou na outra ponta do mundo, quando, de repente, vejo um flamenguista. E pensei: nossa!».
Talvez tenha sido a cara de espanto que o chamou a atenção. Estávamos a escassos minutos do início do jogo entre Benfica e Flamengo e um adepto brasileiro, de sorriso fácil, abeirou-se da bancada de imprensa e desatou a falar. Não era um qualquer.
«Eu sou do Benfica, cara, olha aqui a camisola [e aponta], moro cá há 18 anos. No Brasil, sou Corinthians, mas não tem como fugir, não», comentou, antes de soltar um último sorriso e regressar ao lugar que lhe era destinado. A esperança comandava-lhe o pensamento: «Vai narrar? Se for narrar, se prepare para gritar o golo do Pavlidis».
Esse adepto benfiquista, brasileiro de nascimento, era hoje quase uma raridade, num cenário que poucas vezes vemos em Portugal. Quantos clubes conseguem ter, num estádio, mais adeptos do que o Benfica? Quantas vezes não vimos, do Norte ao Sul do país, “mini-Estádios da Luz?».
Hoje, o Estádio Algarve foi um “mini-Maracanã”: tanto na presença de adeptos – milhares e milhares – como, diga-se, no que se mostrou também em campo.
Na primeira amostra do novo Benfica de Marco Silva, o treinador contratado para tentar resgatar a glória a uns encarnados que têm andando mais afastados dela do que o normal, fica a ideia de que há caminho para andar, mas que também ainda há muito por fazer.
No primeiro jogo, ao vivo e a cores (os outros dois foram à porta fechada), o técnico não foi inovador por aí além. No 11, duas novidades: o reforço Lenglet, no centro da defesa, e Umeh, jovem de 18 anos que jogava na equipa B.
O apito inicial mostrou uma ou outra mudança: Rafa alinhava na direita, Umeh na esquerda e Sudakov, como seria de esperar, aparecia atrás de Pavlidis, no apoio ao ponta de lança grego. No meio-campo, Barrenechea e Barreiro.
Os primeiros minutos foram todos do Flamengo: embalada pela impressionante moldura de adeptos, a equipa brasileira foi dona e senhora do jogo até ao minuto 25, com chances para marcar, sempre desperdiçadas. O Benfica lá apareceu, equilibrou, mas o jogo só animou perto do final da primeira parte.
Foi uma sucessão: Prestianni entrou para o lugar do lesionado Umeh e o coro de assobios atingia incomparáveis decibéis (ninguém se esquece de Vini Jr.), Leonardo Jardim, treinador do Flamengo, desentendeu-se com o banco do Benfica, houve empurrões e dedos em riste, Samuel Lino marcou (45+5), o Benfica empatou logo a seguir de penálti, por Pavlidis.
A longa enumeração, sem pontos finais, é propositada: mal se respirou nos últimos 10 minutos de um primeiro tempo que fazia prometer uma segunda parte ao mesmo nível. Pelo menos.
Acabou por não acontecer: o jogo ficou mais lento, houve alterações de parte a parte, jogou-se pior futebol e apenas Wallace, acabado de entrar, quebrou o enguiço.
Aos 69 minutos, o ponta de lança deixou António Silva para trás e deu o melhor seguimento a um cruzamento de Samuel Lino.
Então, a festa, que já estava boa, ficou ainda melhor para os flamenguistas, os tais que andam por todo o lado, no Rio, no Brasil, em Espanha, na Tailândia, também em Portugal onde venceram um Benfica que, se calhar, se tenha impressionado com o ambiente que encarou.
Como não?
Fonte: TVI






