A aparente contradição que actualmente caracteriza o mercado petrolífero mundial tornou-se ainda mais pronunciada: o consumo está a diminuir, mas a oferta está a cair ainda mais depressa.
É esta combinação que deverá produzir, durante o terceiro trimestre de 2026, um défice mundial estimado em 1,8 milhão de barris por dia, mais do dobro do previsto apenas um mês antes.
A Agência Internacional de Energia reviu esta semana a sua perspectiva para a oferta global e estima agora uma queda média de 4,3 milhões de barris por dia em 2026, para cerca de 102 milhões de barris diários. Em Julho, a previsão apontava para uma redução de 3,7 milhões.
A revisão ocorre depois de a recuperação parcial das exportações do Médio Oriente ter sido novamente interrompida pela deterioração da situação de segurança no Estreito de Ormuz, ataques a petroleiros e dificuldades adicionais no Bab el-Mandeb e no Mar Negro.
O mercado enfrenta, portanto, uma circunstância pouco habitual: mesmo com a IEA a projectar uma contracção de 1,6 milhão de barris por dia da procura mundial em 2026, a escassez de oferta continua suficientemente grande para manter o balanço global negativo.
Défice Mais Do Que Duplica Num Mês
A dimensão da revisão ajuda a perceber a rapidez com que as condições mudaram.
Em Julho, a IEA estimava um défice próximo de 800 mil barris por dia para o terceiro trimestre.
No relatório de Agosto, passou para 1,8 milhão.
Segundo os dados históricos da agência citados pela Reuters, será o maior défice trimestral desde o quarto trimestre de 2021.
A alteração decorre sobretudo da oferta.
A produção mundial recuperou 2,4 milhões de barris por dia em Julho, para 101,5 milhões, mas permaneceu 6,3 milhões de barris abaixo do nível registado um ano antes.
A expectativa de uma recuperação mais rápida dos produtores do Golfo revelou-se excessivamente optimista.
Novas hostilidades e perturbações marítimas obrigaram a IEA a reduzir em 1,7 milhão de barris por dia a estimativa de oferta para o terceiro trimestre relativamente ao relatório anterior.
Ormuz Continua A Determinar A Oferta Mundial
O Estreito de Ormuz permanece no centro desta equação.
Durante o início de Julho, os carregamentos de petróleo do Médio Oriente recuperaram para cerca de 20 milhões de barris por dia, volume próximo dos fluxos anteriores à guerra.
A recuperação revelou-se breve.
À medida que os ataques recomeçaram, os carregamentos caíram para aproximadamente 12 milhões de barris por dia mais tarde no mesmo mês. As exportações regionais, incluindo rotas alternativas a Ormuz, diminuíram 2,1 milhões de barris por dia em Julho, para cerca de 15 milhões.
Ao mesmo tempo, a produção do Golfo alcançou 23,9 milhões de barris por dia, depois de aumentar 2,5 milhões em Julho, mas continuava 8,3 milhões de barris abaixo do nível anterior à guerra.
O problema não reside apenas na quantidade que os países conseguem tecnicamente produzir.
Produção só se transforma em oferta efectiva quando consegue chegar aos mercados consumidores.
É por isso que a segurança das rotas marítimas se tornou quase tão importante quanto a capacidade dos poços.
Rotas Alternativas Têm Limites Económicos
Parte dos fluxos tem sido desviada através de infra-estruturas alternativas, incluindo o sistema saudita Este-Oeste até Yanbu e outras rotas que reduzem a dependência directa de Ormuz.
Mas a capacidade é limitada.
A Energy Information Administration norte-americana observa que as alternativas ao Estreito exigem mais tempo, apresentam custos superiores e não possuem capacidade suficiente para substituir integralmente a principal passagem marítima do Golfo.
Durante o segundo trimestre, o volume de crude e outros líquidos petrolíferos transportados através de Ormuz caiu para uma média de 4,9 milhões de barris por dia, contra 21,6 milhões no quarto trimestre de 2025, antes da guerra.
A diferença ajuda a explicar por que razão uma crise localizada numa passagem marítima relativamente estreita consegue alterar o balanço energético de toda a economia mundial.
410 Milhões De Barris Já Saíram Dos Stocks
Até agora, os inventários têm funcionado como uma das principais linhas de defesa.
Mas essa almofada está a diminuir rapidamente.
Segundo a IEA, os stocks mundiais observados caíram 69 milhões de barris apenas em Julho.
Entre finais de Fevereiro e finais de Julho, a redução acumulada atingiu aproximadamente 410 milhões de barris, equivalente a uma retirada média de 2,7 milhões de barris por dia. Os inventários totais observados ficaram abaixo de 7,9 mil milhões de barris pela primeira vez desde Abril de 2025.
Esta redução possui implicações relevantes para a formação dos preços.
Enquanto existem stocks abundantes, uma interrupção temporária pode ser compensada através da libertação de reservas.
À medida que esses stocks diminuem, cada nova perturbação encontra um mercado com menor capacidade para absorver o choque.
A segurança energética passa, portanto, a depender cada vez mais da recuperação efectiva da produção e dos fluxos comerciais.
Procura Também Está A Ajustar-Se
A escassez não significa, contudo, que os consumidores estejam a tentar adquirir a mesma quantidade de petróleo independentemente do preço.
O ajustamento já está em curso.
A IEA prevê que a procura mundial caia 1,6 milhão de barris por dia em 2026, uma deterioração adicional de 510 mil barris por dia relativamente à estimativa de Julho.
A contracção deverá diminuir progressivamente: depois de uma queda homóloga de 4,9 milhões de barris por dia no segundo trimestre, deverá passar para 2,8 milhões no terceiro e regressar ao crescimento, em aproximadamente 580 mil barris por dia, durante o quarto trimestre
Preços elevados e menor disponibilidade de combustíveis estão a limitar o consumo, particularmente na Ásia e no Médio Oriente.
Ou seja, a crise de oferta está simultaneamente a gerar destruição de procura.
Ainda assim, neste momento, a procura está a cair menos do que a oferta.
É essa diferença que produz o défice.
Refinarias Tornaram-Se Uma Segunda Fonte De Escassez
Existe ainda outra camada importante: nem todo o problema termina quando o crude chega ao mercado.
O processamento mundial das refinarias aumentou em Julho para aproximadamente 80,9 milhões de barris por dia, mas permaneceu quase cinco milhões abaixo do nível observado um ano antes.
Ataques contra refinarias russas, restrições no Médio Oriente e dificuldades de abastecimento de matéria-prima reduziram a capacidade de produção de diesel, gasolina, combustível de aviação e outros derivados.
A consequência aparece nas margens de refinação.
Segundo a IEA, as margens no Atlântico atingiram máximos históricos, sobretudo nos destilados leves e médios.
O comércio marítimo de produtos refinados diminuiu 3,8 milhões de barris por dia em termos homólogos.
As exportações de diesel da Rússia, Médio Oriente e Ásia recuaram cerca de 1,3 milhão de barris por dia, equivalente a aproximadamente 20% do comércio marítimo mundial do produto. No combustível de aviação, a redução atingiu cerca de 670 mil barris diários, correspondentes a 34% do comércio global dessas origens.
Isto significa que a disponibilidade de crude e a disponibilidade de combustível final passaram a constituir dois problemas relacionados, mas distintos.
Rússia Acrescenta Novo Elemento De Restrição
A situação russa amplia esse desequilíbrio.
Segundo o documento da Reuters, a actividade de refinação do país permaneceu próxima de um mínimo de duas décadas, em cerca de 3,9 milhões de barris por dia em Julho, depois de ataques ucranianos terem atingido várias refinarias a oeste dos Montes Urais.
A produção petrolífera russa também recuou cerca de 100 mil barris por dia em Julho, para 8,76 milhões, abaixo da meta estabelecida no quadro da OPEP+.
O efeito é relevante porque a Rússia continua a ser simultaneamente um grande produtor de crude e importante exportador de produtos refinados.
Uma redução da sua capacidade interfere, portanto, em duas etapas da cadeia.
Américas Estão A Compensar Parte Da Perda
A oferta adicional proveniente de outras regiões está a limitar a dimensão do défice.
A IEA estima que a produção das Américas cresça aproximadamente 1,4 milhão de barris por dia em 2026, ajudando a compensar parte das perdas no Médio Oriente e na Rússia.
Estados Unidos, Brasil, Canadá e outros produtores do Atlântico ganharam maior importância à medida que compradores asiáticos procuram substituir barris tradicionalmente adquiridos no Golfo.
Mas a geografia importa.
Substituir petróleo proveniente do Médio Oriente por cargas do Atlântico significa viagens mais longas, maior utilização de petroleiros, fretes superiores e reorganização das cadeias comerciais.
O mercado pode encontrar barris alternativos sem necessariamente encontrar o mesmo petróleo ao mesmo custo.
Preço Continua A Incorporar Escassez E Geopolítica
A volatilidade reflecte esta situação.
Em Julho, as referências internacionais movimentaram-se numa amplitude próxima de 40 dólares por barril, segundo a IEA.
O North Sea Dated subiu 25,67 dólares durante o mês e terminou Julho em 96,80 dólares, enquanto o petróleo chegou a ultrapassar 105 dólares durante a intensificação das hostilidades.
A EIA estima que o Brent deverá apresentar uma média próxima de 85 dólares no terceiro trimestre de 2026.
A agência norte-americana considera que os inventários mundiais poderão diminuir, em média, mais 3,8 milhões de barris por dia durante o trimestre, mantendo os preços relativamente elevados enquanto os fluxos através de Ormuz não se normalizarem.
Esta trajectória, contudo, não deverá necessariamente prolongar-se.
2027 Pode Produzir Uma Reversão Radical
Talvez o elemento economicamente mais interessante das projecções esteja no contraste entre 2026 e 2027.
A IEA prevê que, depois de cair 4,3 milhões de barris por dia este ano, a oferta mundial possa aumentar 8,3 milhões de barris por dia em 2027, alcançando aproximadamente 110,3 milhões.
A procura, por sua vez, deverá aumentar cerca de 2,4 milhões de barris por dia.
No cenário apresentado à Reuters, essa combinação poderá gerar um excedente global próximo de 4,61 milhões de barris por dia em 2027, desde que ocorra desanuviamento geopolítico e normalização dos fluxos.
Seria uma mudança profunda.
O mercado que hoje procura barris disponíveis poderia, num horizonte relativamente curto, passar a lidar com oferta significativamente superior à procura.
A EIA apresenta uma lógica semelhante. Assume que grande parte da produção actualmente interrompida será restaurada no primeiro trimestre de 2027 e que os inventários voltarão a aumentar, levando o Brent para uma média projectada de cerca de 69 dólares por barril em 2027.
O Mercado Está A Precificar Dois Futuros
A actual conjuntura pode, por isso, ser interpretada como um mercado dividido entre dois cenários.
No primeiro, Ormuz permanece limitado, as hostilidades continuam, os stocks diminuem e os produtos refinados permanecem escassos. O petróleo conserva um importante prémio geopolítico.
No segundo, surge um entendimento político, a produção do Golfo regressa, as refinarias recuperam e os milhões de barris actualmente indisponíveis regressam a uma economia mundial cuja procura foi enfraquecida pelos próprios preços elevados.
Nesse caso, o défice pode transformar-se rapidamente em excedente.
Esta assimetria explica parte importante da volatilidade.
Não é apenas a quantidade actual de petróleo que está a determinar o preço. É a probabilidade que o mercado atribui a cada um destes futuros.
Para Moçambique, Produtos Refinados São Particularmente Relevantes
Para Moçambique, a leitura deve ir além da cotação do Brent.
O País importa produtos petrolíferos refinados e, por isso, a evolução das margens de refinação, dos fretes e da disponibilidade de combustíveis pode ser tão importante quanto o comportamento do crude.
Uma redução do preço internacional do barril pode não se transmitir integralmente à factura de importação se diesel, gasolina ou outros derivados permanecerem escassos e as margens das refinarias elevadas.
Da mesma forma, rotas marítimas mais longas e seguros superiores podem manter custos logísticos elevados.
Esta conjuntura afecta potencialmente a procura de divisas, custos de transporte, actividade industrial, agricultura e estrutura de preços da economia.
Da Escassez Actual Ao Risco De Excesso
A principal mensagem do relatório de Agosto da IEA é, portanto, mais complexa do que simplesmente dizer que falta petróleo.
Falta petróleo hoje, apesar de o mundo já estar a consumir menos.
A oferta deverá cair 4,3 milhões de barris por dia em 2026, o terceiro trimestre poderá apresentar o maior défice desde 2021 e 410 milhões de barris já foram retirados dos inventários desde o início da guerra.
Mas a mesma conjuntura que sustenta os preços contém os elementos de uma eventual reversão.
A procura está a adaptar-se aos preços altos. Produtores fora do Golfo aumentam a oferta. E milhões de barris de capacidade actualmente indisponíveis poderão regressar se houver uma solução para Ormuz.
Por isso, o mercado petrolífero enfrenta hoje um equilíbrio particularmente instável: um défice físico significativo no curto prazo e a possibilidade de um excedente igualmente significativo em 2027.
Entre os dois está uma variável que os modelos económicos não controlam: a evolução geopolítica do Médio Oriente.
Fonte: O Económico



