Moçambique está a modernizar simultaneamente duas infra-estruturas fundamentais para o funcionamento da economia: a circulação do dinheiro físico e a movimentação electrónica dos fundos.
Esta dupla transição esteve no centro da VII Reunião com os Directores das Filiais do Banco de Moçambique, realizada esta semana em Metangula, Niassa, onde o Governador Rogério Zandamela identificou a modernização da gestão do ciclo de numerário e o impacto da transformação digital sobre o Sistema Nacional de Pagamentos como duas prioridades estratégicas da instituição.
O enquadramento é significativo porque evita uma interpretação simplista da digitalização financeira.
Mesmo enquanto pagamentos electrónicos e transferências instantâneas se expandem, o numerário continua a desempenhar uma função económica fundamental, sobretudo numa economia onde parte relevante das transacções ainda ocorre em dinheiro físico e onde a cobertura dos serviços financeiros apresenta diferenças territoriais.
Por isso, a transformação financeira não está a substituir imediatamente uma infra-estrutura pela outra.
Está a obrigar o banco central a gerir duas redes monetárias em simultâneo.
Dinheiro Físico Também Precisa De Tecnologia
No lado do numerário, o Banco de Moçambique pretende assegurar que notas e moedas em condições adequadas cheguem aos diferentes pontos do País com segurança, regularidade e eficiência.
As Filiais desempenham uma função central nesse processo pela proximidade às instituições de crédito e capacidade para acompanhar necessidades específicas das economias provinciais.
O Governador revelou que todas as Filiais já dispõem de máquinas de processamento automático de notas.
A automatização reduz intervenção manual, reforça a segurança e aumenta a capacidade de resposta às necessidades do Estado, instituições financeiras e público. Paralelamente, o Banco compromete-se a concluir a modernização das casas-fortes das Filiais que ainda não beneficiaram integralmente desse processo.
Há uma dimensão económica importante nesta modernização.
Gerir numerário envolve transporte, segurança, armazenamento, contagem, autenticação, substituição de notas deterioradas e redistribuição entre regiões excedentárias e deficitárias.
Quanto mais eficiente for esse ciclo, menores tendem a ser os custos associados à circulação física da moeda.
Digitalização Começa A Alterar Os Instrumentos Utilizados
Enquanto moderniza a infra-estrutura física, o sistema financeiro assiste a uma mudança gradual nos instrumentos utilizados pelos agentes económicos.
O Relatório Anual de 2025 do Banco de Moçambique mostra que o número de operações com cheques diminuiu 13,2%, enquanto as transferências electrónicas interbancárias tradicionais recuaram 24,9%. O banco central associa esta evolução à consolidação das plataformas de liquidação em tempo real e ao reforço da interoperabilidade através da SIMOrede, que estão a favorecer a migração para transferências mais imediatas.
A tendência não significa necessariamente menor movimentação de dinheiro.
Significa que parte dessas transacções está a deslocar-se para canais tecnologicamente diferentes.
É precisamente esta mudança que transforma os sistemas de pagamentos numa infra-estrutura cada vez mais importante para a produtividade da economia.
METIX Acrescenta A Dimensão Do Tempo Real
O lançamento do METIX — Sistema de Pagamentos Instantâneos de Moçambique, em Março de 2026, acrescentou uma nova camada a esta transformação.
A plataforma permite efectuar transferências interbancárias em poucos segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana e 365 dias por ano, através de internet banking, aplicações bancárias ou USSD. Para particulares, as transferências interbancárias realizadas através do sistema não têm custos.
O Banco de Moçambique estabeleceu limites diários de 200 mil meticais para particulares e 500 mil meticais para empresas, embora as instituições possam definir limites inferiores de acordo com o perfil de risco dos clientes.
A diferença relativamente aos sistemas anteriores está sobretudo na disponibilidade e velocidade.
Enquanto determinadas transferências dependiam de ciclos de compensação ou horários bancários, o pagamento instantâneo reduz significativamente o intervalo entre a saída dos fundos e a respectiva disponibilidade para o beneficiário.
Segundos Podem Ter Valor Económico
Essa redução de tempo possui implicações económicas.
Para uma empresa, receber fundos imediatamente pode melhorar a gestão da tesouraria, reduzir necessidades temporárias de financiamento e acelerar pagamentos a fornecedores.
Para pequenos comerciantes, significa menor necessidade de manter numerário em caixa.
Para famílias, permite movimentar recursos entre instituições sem esperar pelo funcionamento dos mecanismos tradicionais de compensação.
O próprio Banco de Moçambique identifica, entre os benefícios empresariais do METIX, o aumento da liquidez operacional e a redução de riscos e custos relacionados com o manuseamento de dinheiro físico.
A infra-estrutura de pagamentos passa, nesta perspectiva, a desempenhar uma função semelhante a outras redes económicas.
Assim como uma estrada mais rápida reduz o tempo necessário para transportar mercadorias, um sistema financeiro mais eficiente reduz o tempo necessário para transportar valor.
Interoperabilidade É A Chave Para O Efeito De Rede
A transformação depende, contudo, de uma condição fundamental: os diferentes sistemas precisam de comunicar entre si.
É neste ponto que a consolidação da SIMOrede assume particular importância.
Uma rede de pagamentos produz mais valor económico quanto maior for o número de pessoas, empresas e instituições que podem transaccionar entre si.
Se clientes de determinado banco ou carteira móvel apenas conseguem realizar operações dentro da própria rede, o sistema permanece fragmentado.
A interoperabilidade reduz essas fronteiras.
O Relatório Anual do Banco de Moçambique refere que, durante 2025, o processo foi alargado às instituições de moeda electrónica, permitindo aprofundar a integração entre diferentes participantes do sistema financeiro.
Este efeito de rede pode ser particularmente importante para um país onde carteiras móveis desempenham um papel crescente na disponibilização de serviços financeiros fora da banca convencional.
Digital Não Elimina O Numerário
A expansão dos pagamentos electrónicos levanta, entretanto, uma questão recorrente: até que ponto o dinheiro físico perderá importância?
O próprio desenho das prioridades apresentadas por Rogério Zandamela sugere que essa substituição não será imediata.
Enquanto investe em METIX, interoperabilidade e sistemas electrónicos, o Banco de Moçambique continua a modernizar casas-fortes e equipamentos de processamento de notas.
Não existe contradição.
A estrutura económica do País exige que as duas formas de pagamento coexistam.
O numerário continuará particularmente relevante para consumidores e pequenos negócios com menor acesso à tecnologia, conectividade ou serviços financeiros formais.
Os pagamentos digitais ganharão espaço onde oferecem maior rapidez, conveniência e menor custo.
O desafio da política pública será permitir que a transição resulte de vantagens económicas para os utilizadores, e não da exclusão daqueles que ainda dependem do dinheiro físico.
Inclusão Já Não Significa Apenas Ter Um Ponto De Acesso
A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2031 confirma uma mudança importante na própria definição das prioridades nacionais.
A estratégia deixa de concentrar-se apenas na expansão do acesso e passa a atribuir maior importância ao uso, qualidade, preço, segurança e confiança nos produtos financeiros.
Entre os seus quatro pilares encontram-se a expansão do acesso, maior utilização de produtos e serviços financeiros, literacia financeira e fortalecimento da protecção dos consumidores.
Nos pagamentos, a estratégia pretende promover a utilização digital através de infra-estruturas mais robustas, maior cobertura móvel e expansão dos pontos de aceitação.
Esta mudança é relevante.
Ter uma conta ou carteira móvel representa apenas a primeira etapa.
Para produzir impacto económico, o serviço precisa de ser utilizado regularmente, apresentar custos adequados, funcionar de forma confiável e responder às necessidades reais das famílias e empresas.
Mais Digitalização Significa Também Mais Risco Digital
A mesma tecnologia que reduz custos e aproxima serviços financeiros introduz novas vulnerabilidades.
Fraudes, engenharia social, roubo de credenciais, utilização indevida de dados e erros em transacções tornam-se riscos crescentes à medida que mais dinheiro passa a circular através de canais digitais.
É por isso que Zandamela associou a expansão destes canais à necessidade de mais informação, maior confiança e protecção efectiva do consumidor financeiro.
A ENIF 2025-2031 coloca igualmente protecção de dados e segurança digital entre as condições necessárias para fortalecer a confiança no sistema financeiro.
Esta dimensão será fundamental.
Um sistema pode ser tecnologicamente eficiente, mas dificilmente alcançará utilização massiva se os consumidores tiverem receio de perder dinheiro ou não compreenderem os mecanismos de segurança disponíveis.
Filiais Ganham Uma Nova Função Na Era Digital
Uma das ideias mais interessantes do discurso do Governador está precisamente no papel atribuído às Filiais.
Tradicionalmente, uma representação territorial do banco central poderia ser associada sobretudo a numerário, fiscalização, operações bancárias e relacionamento institucional.
A digitalização amplia essa missão.
Zandamela considera que as Filiais devem também promover literacia financeira e digital, dialogar com operadores locais e acompanhar a utilização segura dos meios de pagamento, descrevendo-as como “os olhos e os ouvidos do Banco de Moçambique no terreno”.
Isto introduz uma dimensão importante na transformação tecnológica.
O sistema pode ser nacional, mas os constrangimentos continuam frequentemente a ser locais.
Qualidade da rede móvel, cobertura bancária, disponibilidade de agentes, comportamento dos consumidores e incidência de fraudes podem variar significativamente entre províncias.
Uma rede territorial do regulador pode permitir que esses sinais cheguem mais rapidamente ao centro de decisão.
Sistema De Pagamentos É Infra-Estrutura Económica
O debate sobre modernização dos pagamentos tende muitas vezes a ser tratado como assunto técnico do sector bancário.
Mas a sua importância económica é mais ampla.
Empresas dependem dos pagamentos para receber vendas e liquidar fornecedores.
O Estado precisa deles para salários, pensões, impostos e transferências.
Famílias utilizam-nos para consumir, poupar e transferir recursos.
Quanto menor for o custo e o tempo necessário para completar estas operações, maior tende a ser a eficiência da circulação do dinheiro na economia.
Nesse sentido, um sistema nacional de pagamentos moderno é uma infra-estrutura económica, tal como telecomunicações, estradas ou energia.
A Transição Terá De Funcionar Nos Dois Sentidos
A VII Reunião dos Directores das Filiais coloca, por isso, uma questão que ultrapassa a própria organização interna do Banco de Moçambique.
A economia nacional encontra-se numa fase em que o dinheiro está simultaneamente a tornar-se mais tecnológico no seu tratamento físico e mais digital na sua movimentação.
Nas casas-fortes, máquinas substituem processos manuais.
No sistema bancário, plataformas instantâneas reduzem o tempo das transferências.
Na interoperabilidade, redes anteriormente separadas aproximam-se.
E nas províncias, a política de inclusão procura transformar acesso em utilização efectiva.
A modernização do sistema financeiro moçambicano não será medida apenas pelo número de novas plataformas introduzidas.
Será medida pela capacidade de assegurar que o dinheiro — seja em nota, conta bancária ou pagamento digital — circule com menor custo, maior segurança e maior eficiência entre famílias, empresas e Estado.
É essa combinação entre numerário modernizado e pagamentos digitais que começa a definir a próxima fase da infra-estrutura financeira de Moçambique.
Fonte: O Económico




