Por: Lurdes Almeida
Por detrás do abastecimento regular de combustíveis existe uma factura externa que exerce pressão crescente sobre as reservas em moeda estrangeira. Em termos concretos, o país desembolsou 236,4 milhões de dólares na importação de combustíveis, um valor que ajuda a dimensionar o peso deste produto na procura por divisas. A factura de importação de combustíveis reduziu-se em 1,4% no primeiro trimestre de 2026, passando de 239,6 milhões de dólares, registados no mesmo período de 2025, para 236,4 milhões de dólares. Os dados divulgados pelo Banco de Moçambique mostram que os combustíveis revelaram que quase metade dos 517 milhões de dólares gastos pelo país na importação de bens intermédios entre Janeiro e Março. O gasóleo foi responsável pela maior parcela, com 164,9 milhões de dólares, seguido da gasolina, com 56,4 milhões, e do combustível de aviação, com 15,2 milhões de dólares.
O conflito no Médio Oriente não tornou essa vulnerabilidade visível, pois ela já existia. Um exemplo concreto dessa realidade aconteceu quando o Governo decidiu, em Maio, aumentar o preço dos combustíveis. O gasóleo registou uma subida de 45,5% no preço por litro, enquanto a gasolina aumentou 12,1%, num contexto marcado pelos efeitos do conflito sobre os mercados internacionais de energia.
O Banco de Moçambique tem reconhecido dificuldades enfrentadas por algumas empresas do sector no acesso a divisas para financiar as importações. Ao mesmo tempo, o governador do banco central afirmou que, no primeiro semestre, o mercado cambial apresentou maior fluidez, sustentada pela indústria extractiva, enquanto as vendas de divisas pelos bancos aos seus clientes aumentaram em 356 milhões de dólares, atingindo 4,16 mil milhões de dólares. O sector dos combustíveis absorveu metade das divisas vendidas aos maiores compradores no mercado cambial.
Uma empresa que precisa de importar máquinas pode encontrar dificuldades. Uma indústria que precisa de matérias-primas pode enfrentar restrições. Um importador de equipamentos pode ter de esperar. Um empresário que pretende expandir a produção pode não conseguir acesso suficiente a moeda estrangeira.
Assim, a dependência de combustíveis importados não é apenas um problema energético. É também um problema cambial, empresarial e produtivo.
Quanto o Estado gasta mais dólares para manter a economia abastecida de combustíveis importados, menos espaço existe para financiar outras importações essenciais à transformação económica. O mais preocupante é que, depois da crise de Abril e Maio, uma nova vaga de escassez voltou a ser registada em Agosto. Não precisamos necessariamente de produzir tudo o que consumimos. Nenhuma economia moderna funciona dessa forma. É necessário, enquanto país, identificar os sectores estratégicos cuja dependência quase exclusiva de fornecedores externos pode comprometer a nossa segurança económica. Os combustíveis estão, sem dúvida, entre eles.
Moçambique precisa de decidir se continuará a exportar os seus recursos e a importar aquilo de que necessita, ou se começará a transformar a sua riqueza natural numa economia mais produtiva e menos dependente do exterior. O combustível que hoje importamos ilustra bem o problema: além de pagarmos pelo produto, ficamos sujeitos às oscilações dos mercados internacionais, que podem aumentar significativamente os custos para o país.






