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Artista moçambicano dá vida a armas e tronos contra poder à força em África

O artista plástico moçambicano Gonçalo Mabunda encontrou na arte de transformar armas o contributo para difundir valores da paz, enquanto constrói máscaras e tronos com estes espólios para criticar líderes africanos que conquistam o poder através da força.

Mabunda, 51 anos, fez o primeiro trono com armas destruídas em 1997, ano em que se iniciou como artista, para ter onde se sentar e soldar, mas um dos seus clientes gostou da obra e comprou-a.

“Então, dali fiz outro trono e comecei a pensar sobre os líderes africanos, que eles gostam de ter os tronos usando a força. Mais ou menos isso. [Em] África, muitos deles usam a força para chegar ao trono”, diz, em entrevista à Lusa, em Maputo.

No distrito municipal da Katembe, na margem sul da baía da capital, Gonçalo encontrou lugar para viver a arte, dando vida a objetos a partir de armas e outros restos de metais.

No chão daquele lugar que é o seu ateliê estão espalhados restos de material bélico utilizado durante a guerra civil que durou 16 anos, culminando, em 1992, com a assinatura dos Acordos de Paz.

As balas, pedaços da metralhadora AK-47, carregadores, pistolas e restos de explosivos começaram a chegar às mãos de Gonçalo através de um projeto do Conselho Cristão de Moçambique, que pretendia recolher e eliminar as armas usadas na guerra, mas encontrou em Gonçalo alguém que pudesse ressignificar os objetos.

Foi assim que Gonçalo Mabunda, que já andava no Núcleo de Artes, em Maputo, a aprender a pintar, se descobriu na soldadura que transforma metais em arte, inventando tronos ou máscaras que são “pessoas falsas”.

“Cada máscara que ponho é alguém que por trás tem outra maneira de pensar. Você olha ela bonitinha, tudo conectado, tudo bom. Eu recordo-me de mim, por exemplo, quando vou ao banco, quando tenho brinco para levar o meu dinheiro, estranham-me. Como é me estranhar, amigo? Se é meu dinheiro, [só] porque tenho brinco, tenho cabelo despenteado. Então falo dessa falsidade também, da identidade da pessoa”, diz.

Neste sentido, com o trono Gonçalo critica os líderes africanos que usam a força para alcançar o poder.

“Quando falo das máscaras e do trono, falo dos presentes [líderes] africanos que, não sei como dizer, que sempre usam a força para chegar ao trono. Ao trono não chega assim. Ao trono chega naturalmente. Os reis, aqueles não eram gajos que usavam tronos, eram intitulados”, diz.

“Sempre querem sangue para chegar ao poder”, aponta, admitindo não se lembrar de quantos tronos já fez, mas há alguns no processo de soldadura no seu espaço.

Gonçalo nasceu em 1 de janeiro de 1975, seis meses antes da independência nacional, com Moçambique a entrar na guerra civil dois anos depois e um jovem artista a ver-se impedido de ter treino militar.

Apesar disso, não ficou livre do manejo de armas, com muitas vezes a ver os restos destes materiais bélicos a dispararem repentinamente durante a preparação das obras.

“Quando começámos a trabalhar com esse material não o conhecíamos, não dominávamos. Às vezes disparava. Então eu podia estar morto, ou posso estar morto amanhã. Mas agora já conheço melhor do que antes, porque quando começámos éramos 10 artistas e não sabíamos as coisas. Algumas armas estavam com balas encalhadas”, conta, frisando que ninguém se feriu até hoje.

Mabunda começou a encontrar também no seu trabalho motivo para lutar pela paz que, diz, o país nunca conseguiu alcançar na totalidade, apesar dos esforços.

“A gente nasce, cresce e depois chega um tempo e temos que decidir coisas. E nesse caso, por exemplo, eu tive essa sorte de estar no Núcleo de Artes, de ter a oportunidade de ter esse material bélico e comecei a fazer a minha carreira como um artista. Mas aos poucos, por exemplo, no mundo fora eles me chamam como um artista político, mas eu não sou político. Mas ao mesmo tempo eu sou uma pessoa que critica os políticos todos”, afirma.

“As minhas exposições têm títulos loucos. A minha última exposição chamou-se O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza. Tu já entendes o que estou tentando dizer. Quem fabrica a pobreza é quem tem a arma”, diz.

Para o artista, a paz está a ser condicionada pela pobreza e pela distribuição desigual dos recursos que deviam impedir que se viva de “qualquer maneira”, tal como testemunhou no distrito de Palma, em Cabo Delgado, província rica em gás.

“O nosso país está mal. Não tem paz”, diagnostica o artista, criticando os ataques armados na província de Cabo Delgado, norte do país.

“O povo sempre precisou de paz, de escola. Hoje você está a dizer que as crianças estão a estudar debaixo de árvore, com frio. Eu até estive a ver hoje de manhã na televisão. Crianças com frio, a andar. Mas é um país rico. O teu país é rico, sabes? Muito rico. Mas a riqueza foi para quem? Para alguns. Um punhado. Não, não pode ser assim. Temos que tentar dividir”, pede.

Apesar das guerras no país, o nome de Gonçalo chegou longe e até ao ex-presidente norte-americano Bill Clinton pediu ao artista para construir, com base em armamento destruído, os prémios para a “Clinton Global Initiative Summit”, na sua edição de 2008, depois de o antigo estadista ver os seus trabalhos com um colecionador de arte em França.

“Me desafiou a fazer isso, eu fiz, mostrei, ele disse, isso mesmo vai ser. Aquilo que ele queria, aconteceu”, diz, orgulhoso por “mostrar que transformar armas é obra de arte”.

Após fazer os prémios e entregá-los, Mabunda respondeu a uma pergunta de Clinton: “ele perguntou-me ‘mas por que você está a fazer isso com balas?’ Eu disse, ‘porque cada bala que eu destruo é uma vida que eu estou a salvar. Se eu destruir milhares e milhares de balas, são várias vidas que eu vou salvar. São vidas que a gente salva quando destrói'”.

 

Fonte: Observador

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