Produção Recupera Depois De Dois Anos De Seca
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa encerrou o primeiro semestre de 2026 com uma produção de 6.399,02 gigawatts-hora, ultrapassando em cerca de 10% o plano estabelecido para os primeiros seis meses do ano e em 13% o volume produzido no período homólogo.
O crescimento representa, em termos aproximados, mais 736 GWh do que no primeiro semestre de 2025 e cerca de 582 GWh acima da meta interna. A dimensão do avanço mostra que a recuperação não foi apenas marginal, mas suficientemente expressiva para alterar a trajectória operacional da empresa.
O volume produzido entre Janeiro e Junho corresponde já a aproximadamente 59% dos 10.921 GWh gerados durante todo o exercício de 2025, ano em que a empresa operou num contexto de fortes limitações hidrológicas. A HCB confirma que os resultados de 2025 foram alcançados apesar da crise de disponibilidade de água que condicionou a operação da central.
A principal mudança ocorreu na Albufeira de Cahora Bassa. O armazenamento útil, que tinha atingido um mínimo histórico próximo de 20% em 2025, subiu cerca de 35 pontos percentuais, alcançando um máximo de 56%, correspondente à cota de 316,22 metros.
A recuperação cria condições para o levantamento gradual das restrições operacionais em vigor desde Julho de 2024, impostas para preservar a sustentabilidade da albufeira durante dois anos hidrológicos consecutivos de seca severa.
Mais Do Que Um Efeito Da Chuva
As condições hidrológicas mais favoráveis na Bacia do Zambeze foram determinantes, mas não explicam isoladamente o desempenho.
A HCB atribui os resultados à combinação entre maior disponibilidade de água, gestão criteriosa da exploração, reforço dos programas de engenharia e manutenção e disciplina operacional. O facto de a empresa ter aumentado simultaneamente a produção e as reservas sugere uma melhoria da capacidade de optimizar as descargas, a disponibilidade dos grupos geradores e o aproveitamento da água armazenada.
Este equilíbrio é relevante porque uma hidroeléctrica pode aumentar a produção no curto prazo através de maiores descargas, mas comprometer a geração futura caso a exploração não preserve níveis adequados da albufeira. No primeiro semestre, a HCB conseguiu produzir acima do plano enquanto recuperava armazenamento, reduzindo parcialmente o risco operacional para os meses seguintes.
A empresa registou igualmente zero acidentes de trabalho no período, indicador relevante para uma operação industrial de elevada complexidade e risco.
Resultados Financeiros Revelam Forte Capacidade De Geração De Caixa
A produção adicional permitiu à HCB gerar receitas de aproximadamente US$ 263 milhões e um resultado líquido superior a US$ 115 milhões.
Os números ainda aguardam auditoria, pelo que devem ser tratados como resultados preliminares. Ainda assim, apontam para uma margem líquida indicativa superior a 43%, reflectindo a elevada capacidade de geração de resultados de um activo hidroeléctrico de grande escala quando existe disponibilidade hídrica e operacional.
Nas empresas hidroeléctricas, uma parcela importante dos custos está associada à manutenção da infra-estrutura, mão-de-obra, sistemas de transmissão e encargos financeiros. Uma vez asseguradas a água e a disponibilidade técnica dos equipamentos, o aumento da produção pode traduzir-se numa expansão proporcionalmente mais rápida dos resultados.
O desempenho amplia a capacidade da HCB para financiar manutenção, modernização tecnológica, investimentos de expansão, dividendos e projectos de impacto social. Contudo, a leitura definitiva dependerá das demonstrações financeiras auditadas, da estrutura dos custos, da evolução cambial e das condições dos contratos de fornecimento de energia.
HCB Ganha Peso Numa Estratégia Regional Mais Ambiciosa
A melhoria operacional ocorre num momento em que Moçambique procura consolidar-se como plataforma de geração e exportação de energia para a África Austral.
O Compacto Nacional de Energia de Moçambique identifica como prioridade o reforço da posição do País enquanto exportador relevante para o Southern African Power Pool. O documento prevê a reabilitação da Central de Cahora Bassa, o desenvolvimento optimizado da cascata do Zambeze e uma política de preços de exportação que obrigue as empresas públicas do sector a celebrar contratos assentes em princípios comerciais.
A robustez financeira da HCB será, neste contexto, importante para suportar os investimentos de reabilitação de uma infra-estrutura com cinco décadas de funcionamento. O bom desempenho corrente não reduz a necessidade de modernizar equipamentos, sistemas de controlo, transmissão e mecanismos de adaptação climática.
A integração regional também está a ganhar maior relevância. O Banco Mundial aprovou apoio técnico para expandir o comércio de electricidade no Southern African Power Pool e preparar novos investimentos em interligações entre os países da região.
Para a HCB, esta evolução pode ampliar oportunidades de venda, diversificar mercados e melhorar a valorização da energia produzida. Mas exigirá contratos eficientes, capacidade de transmissão, disponibilidade técnica elevada e gestão prudente da água.
Segurança Energética Exige Mais Do Que Produção
O aumento da produção reforça a disponibilidade de energia para Moçambique e para os mercados regionais, mas a contribuição efectiva para a transformação económica nacional depende também da capacidade da rede de transportar essa energia até aos centros de consumo.
Moçambique continua a investir em geração, interligações e acesso à electricidade. Entre 2020 e 2024, o projecto Energia para Todos permitiu ligar mais de 514 mil famílias, beneficiando aproximadamente 2,6 milhões de pessoas. O Banco Mundial considera, contudo, que a expansão da geração deve ser acompanhada pelo reforço da transmissão e distribuição.
A questão estratégica não é apenas quanto a HCB produz, mas quanto dessa energia pode ser utilizada de forma competitiva pela indústria, agricultura, mineração, comércio e famílias moçambicanas, sem comprometer as exportações que geram receitas externas.
O País terá de equilibrar três objectivos: abastecer o mercado interno, cumprir contratos regionais e maximizar o retorno económico da energia exportada. A recuperação da albufeira dá maior margem para esse equilíbrio, mas não substitui investimentos na rede nacional.
Recuperação Não Elimina O Risco Hidrológico
A subida do armazenamento para 56% representa uma inversão importante, mas não deve ser interpretada como eliminação do risco climático.
Mais de metade dos recursos de água doce de Moçambique tem origem fora das fronteiras nacionais, enquanto mais de 86% da capacidade de armazenamento do País está concentrada numa única barragem — Cahora Bassa — segundo o Banco Mundial.
Esta concentração torna a HCB simultaneamente um activo estratégico e um ponto de vulnerabilidade. Alterações na precipitação, fluxos provenientes dos países a montante, secas prolongadas e eventos climáticos extremos podem afectar rapidamente a produção, as receitas e o fornecimento regional.
A recuperação de 2026 deve, por isso, ser utilizada para reforçar reservas, acelerar a manutenção e melhorar instrumentos de previsão hidrológica. A sustentabilidade da produção não poderá depender apenas de um bom ciclo de chuvas, mas de uma gestão preparada para alternar entre períodos de abundância e escassez.
Cotação Atinge 3,00 Meticais, Mas Liquidez Continua Limitada
O desempenho operacional reflectiu-se também na Bolsa de Valores de Moçambique. As acções da HCB atingiram uma cotação máxima de 3,00 meticais no primeiro semestre.
Durante o período foram transaccionadas 27.538.315 acções, num volume financeiro aproximado de 80,5 milhões de meticais. A Bolsa de Valores de Moçambique reporta igualmente a cotação de 3,00 meticais e uma capitalização da HCB próxima de 92,1 mil milhões de meticais no segundo trimestre.
O volume negociado durante o semestre corresponde, contudo, a menos de 0,1% da capitalização bolsista da empresa. Isto significa que a valorização das acções é um sinal positivo de confiança, mas ocorre num mercado ainda caracterizado por reduzida liquidez.
Uma maior participação de investidores, divulgação regular de informação financeira e crescimento do mercado secundário seriam importantes para que a cotação reflectisse de forma mais profunda e contínua o desempenho económico da empresa.
Investimentos Locais Procuram Ampliar O Efeito Multiplicador
A HCB mantém igualmente investimentos em infra-estruturas sociais e económicas na província de Tete.
Entre os projectos anunciados encontram-se a reabilitação de 112 quilómetros da Estrada Nacional 301 entre Matambo e Maroeira, a construção e o apetrechamento do Hospital Distrital de Cahora Bassa e o Projecto Transformar, orientado para infra-estruturas e sistemas sustentáveis de produção agrícola e pecuária.
A Iniciativa de Desenvolvimento da Economia Local pretende ainda criar empresas capazes de fornecer bens e serviços à HCB através de contratos, promovendo empreendedorismo, emprego e maior conteúdo local.
O impacto destas iniciativas dependerá da capacidade de integrar empresas locais nas cadeias de fornecimento de forma competitiva e duradoura. Mais do que responsabilidade social, o desenvolvimento de fornecedores pode criar uma base empresarial capaz de prestar serviços a outros grandes projectos de energia, mineração e infra-estruturas.
Segundo Semestre Será Decisivo Para Consolidar A Recuperação
Os resultados dos primeiros seis meses colocam a HCB numa posição operacional e financeira mais favorável. A produção supera o plano, as reservas recuperam, os resultados mantêm-se elevados e a cotação bolsista demonstra confiança dos investidores.
O segundo semestre terá, porém, de confirmar quatro condições: manutenção de níveis hidrológicos sustentáveis, normalização gradual das restrições operacionais, execução dos programas de manutenção e preservação da rentabilidade após a auditoria das contas.
A recuperação da albufeira oferece à HCB maior margem de segurança, mas a verdadeira medida do desempenho será a capacidade de converter este ciclo favorável em investimentos que reduzam a vulnerabilidade futura.
O primeiro semestre mostra que Cahora Bassa continua a ser um dos activos económicos mais valiosos de Moçambique. O desafio consiste agora em transformar uma recuperação conjuntural da água numa plataforma duradoura de segurança energética, receitas externas, industrialização e desenvolvimento regional.
Fonte: O Económico






