Antes do primeiro dia de descanso, o Tour de France estacionou em Bordéus, na costa sudoeste, para a chegada da sétima etapa, debaixo de 42ºC e sem direito a brisas ou sombras.
Tal como há um ano em Toulouse, o Maisfutebol visitou Bordéus – oficialmente cidade irmã do Porto desde 1978 – à boleia da VELUX, a “Maison du Dossard”, ou seja, a casa dos dorsais do Tour de France.
Na sexta-feira, horas antes de os ciclistas dominarem as atenções, os aficionados dispersam entre a Place de la Bourse, a meta e a fan-zone – em contracorrente há quem adormeça no relvado junto ao rio Garona, tingido pela terra.
Na reta para a meta, os gigantes e criativos carros alegóricos fazem as delícias das centenas que anseiam todo o tipo de brindes: t-shirts, canetas, bonés, boinas, cadernos, óculos de sol, lenços, bidões, bolachas, barras energéticas, guloseimas, batatas fritas, porta-chaves, entre outros.
Há chapéus e t-shirts de todos os tons e padrões, enriquecendo a tela que conta com as bandeiras de França, Bélgica, Noruega, Espanha, Eritreia, Estados Unidos, Argentina, Brasil, México, Venezuela, Eslovénia, Chéquia, Dinamarca e, claro, de Portugal. E também é possível identificar a bandeira da Occitânia, da Bretanha e da ilha de Sark, com os “leões passantes” da realeza inglesa.
Para que ninguém “derreta” e falhe a chegada do pelotão, os sapadores locais refrescam as hostes à boleia de imponentes camiões.



A etimologia de Bordeaux remonta ao latim “Burdigala”: “burd” (lama) e “gala” (porto). Uma vez que pertence à região da Occitânia, o nome evoluiu para “Bordèu” antes da fórmula atual.
Notável desde o Império Romano pelo vinho e pelos métodos de trabalho na vinha – herdando o dom dos fenícios – Bordéus foi palco de inúmeras disputas, sobretudo pelo posicionamento estratégico junto ao Atlântico.
No século XII, Leonor de Aquitânia – nascida no Ducado de Guiana, cuja capital era Bordéus – abdicou do trono francês e deixou Luís VII, casando com Henrique II de Inglaterra. Ora, o ducado passou para a posse dos "rivais", mas o rei inglês tornou-se vassalo do homólogo francês, fatores que serviram de rastilho para a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). O conflito revelou Joana D’Arc e devolveu Bordéus à coroa francesa.
Por tudo isto, o brasão da cidade de Bordéus está pintado a azul, vermelho, branco e dourado, com o “leão passante” do Ducado de Guiana, as antigas torres, a flor-de-lis – símbolo do poder divino dos reis – e a lua crescente, em menção à curva que o rio Garona descreve na cidade.
Quanto a Leonor de Aquitânia, ficou conhecida como a “Avó da Europa”, uma vez que a árvore genealógica também passou por Portugal (a partir de Sancho II), Espanha, Alemanha, Itália e Brasil, além de Escandinávia e Europa de Leste.
Já no século XX, franceses e ingleses uniram forças perante a Alemanha nazi. Em junho de 1940, já depois de Bordéus abrigar o governo francês, as forças germânicas invadiram e controlaram a cidade, aproveitando o posicionamento estratégico para construir uma base submarina e orquestrar ataques sobre os Aliados.
Em simultâneo, o português Aristides de Sousa Mendes concedeu inúmeros vistos, o que valeu a distinção de herói em Bordéus.
Após 1945, a enorme estrutura militar de betão não foi destruída, servindo desde 2020 de casa ao Bassins de Lumières, o «maior centro de arte digital do Mundo».
Já neste século, a UNESCO distinguiu Bordéus como a capital mundial do vinho – o “Porto da Lua” – uma vez que a região ostenta o maior e um dos melhores centros de vinicultura, além de ser pioneira na proteção das vinhas (a calda bordalesa) e na produção e conservação do vinho.
E muitos aspetos relacionam Bordéus e Porto. O vinho, a arquitetura distinta, o nome de algumas ruas, o rio e até o futebol. Mas esse tópico terá palco no Maisfutebol na próxima semana.
O Tour passou em Bordéus pela 83.ª vez, sendo apenas superado pela capital Paris. A cidade agigantou-se no ciclismo a partir de 1891, servindo de mote para a clássica Bordéus-Paris até '77, uma corrida de 600 quilómetros disputada com bicicletas a motor.
Entretanto, a cidade conectou-se à capital através da ferrovia (TGV), numa viagem de duas horas.
Após a ausência de 13 anos, Bordéus regressou ao mapa do Tour em 2023, num palco predileto para “sprinters” como Jasper Philipsen e Mark Cavendish.
Para lá de classificações gerais, os franceses têm uma nova esperança, o lusodescendente Paul Seixas (19 anos), trunfo da Decathlon. Este jovem é bisneto de um casal natural de Gouvães do Douro, no distrito de Vila Real, conforme esclareceu ao Maisfutebol o pai de Paul – Emmanuel Seixas.
O avô paterno de Emmanuel emigrou «muito novo para trabalhar em França, onde foi pai em Dordonha», junto a Bordéus.
Fruto do amor entre Emmanuel e Emmanuelle – outrora praticantes de karaté – Paul nasceu a 24 de setembro de 2006 em Lyon. Não fala português, mas não esconde a ascendência lusa. A caminho dos 20 anos, este trepador terminou a Volta ao Algarve no segundo lugar, arrecadou duas clássicas (Faun-Ardèche; La Flèche Wallonne) e conquistou as quatro camisolas da Volta ao País Basco, encerrando o jejum francês em corridas por etapas World Tour que durava desde 2006.
Nesta edição do Tour, Paul – de 1,86 metros e 64 quilos – conseguiu o terceiro lugar na 10.ª etapa, somente atrás de Pogacar (UAE Emirates) e de Evenepoel (Red Bull). Se na classificação geral o lusodescendente está no quinto lugar, a 4:35 minutos de Pogacar, na classificação da juventude (camisola branca) ocupa o segundo posto, a 13 segundos de Ayuso (Lidl/Trek).
No sonho dos franceses – que muito gritam por Paul “Sexas” – está o primeiro pódio na geral em quase 10 anos. O último a consegui-lo foi Romain Bardet em 2017 (3.º), 2016 e 2014 (2.º). Quanto à conquista da camisola branca, o último francês foi Pierre Latour (2018), então com 25 anos. Por fim, Bernard Hinault foi o mais recente gaulês a conquistar o Tour (1978, 1979, 1981, 1982 e 1985), quando igualou os recordistas Jacques Anquetil, Eddy Merckx e Miguel Induráin.
A esse propósito, é uma questão de tempo até Pogacar (2020, 2021, 2024 e 2025) descolar de Chris Froome e completar o quinteto.

Num palco pensado para os velocistas, o belga de 33 anos acelerou nos derradeiros metros e superiorizou-se a Waerenskjold (UNO-X), Girmay (NSN), Kanter (XDS Astana) e a Jasper Philipsen (Alpecin), vencedor naquela cidade em 2023. Depois do terceiro lugar na quinta etapa, Tim Merlier (Soudal Quick-Step) ganhou embalo e repetiu a façanha no dia seguinte, na oitava etapa.
No intervalo entre os triunfos do belga, a seleção de futebol foi eliminada pela Espanha no Mundial 2026.

Apesar do calor seco – por vezes sufocante – a maioria dos aficionados não arreda. Querem ver os protagonistas, assistir ao pódio e aproveitar a tarde até ao último segundo. Em Bordéus, capital internacional do vinho e cidade com muita história e desporto, o ciclismo partilha o trono com futebol e râguebi.

Fonte: CNN Portugal



