Resumo
África está a passar por uma "transição industrial silenciosa mas irreversível", com profundas assimetrias regionais e limitada retenção de valor económico no continente, de acordo com relatórios lançados durante as Reuniões Anuais de 2026 do Banco Africano de Desenvolvimento. Marrocos lidera o novo Índice Africano de Industrialização, ultrapassando a África do Sul, devido à sua política industrial forte e diversificação das exportações. Apesar de progressos industriais em 41 países africanos, a África representa menos de 2% da produção industrial mundial e tem fraca integração económica intra-africana. Marrocos destaca-se pela sua estratégia industrial de longo prazo, consolidando posições em vários setores. O Norte de África lidera a captação de investimento industrial no continente, com Marrocos e Egito em destaque.
O principal destaque recai sobre Marrocos, que ultrapassou oficialmente a África do Sul e passou a liderar o novo Índice Africano de Industrialização (Africa Industrialization Index – AII 2025), graças ao fortalecimento consistente da sua política industrial, diversificação das exportações e modernização produtiva.
A África do Sul mantém-se como uma potência industrial continental relevante, mas o relatório assinala uma deterioração gradual da sua competitividade industrial nos últimos anos.
África Industrializa-se, Mas Continua Fragmentada
O AII 2025 avaliou o desempenho industrial de 54 países africanos entre 2010 e 2024 e concluiu que 41 países registaram melhorias nos seus indicadores de industrialização, com o desempenho médio continental a aumentar cerca de 6%.
Segundo o BAD, os maiores progressos ocorreram sobretudo entre economias anteriormente menos industrializadas, sugerindo algum processo de convergência industrial no continente.
Ainda assim, os dados revelam limitações estruturais significativas.
África continua a representar menos de 2% da produção industrial mundial e apenas 1,4% das exportações globais de manufactura. Ao mesmo tempo, o valor acrescentado industrial per capita permanece abaixo dos níveis observados antes de 2014.
Outro dado considerado particularmente crítico é o baixo nível de integração económica intra-africana.
Segundo o relatório, o comércio intra-africano representa apenas 14,4% do comércio total do continente, reflectindo fracas ligações produtivas regionais e ecossistemas industriais ainda fragmentados.
Marrocos Consolida Estratégia Industrial De Longo Prazo
A ascensão de Marrocos resulta, segundo o relatório, de uma estratégia industrial sustentada ao longo de vários anos, centrada em infra-estruturas, zonas industriais, integração logística, formação técnica e diversificação exportadora.
O país consolidou posições relevantes em sectores como automóvel, aeronáutica, fertilizantes, energias renováveis e indústria transformadora orientada para exportação.
Ao mesmo tempo, beneficiou da proximidade aos mercados europeus e de políticas industriais relativamente consistentes e coordenadas.
Norte De África Lidera Captação De Investimento
O relatório complementar — Africa Industrial Investment Barometer (AfIIB) — mostra igualmente que o Norte de África lidera os principais indicadores de atractividade industrial no continente.
Entre 2020 e 2025, a região captou cerca de 56% do investimento industrial acumulado em África, com Marrocos e Egipto na linha da frente.
Segundo os autores, o grande desafio africano já não reside apenas na formulação de estratégias industriais, mas sobretudo na capacidade de execução, continuidade política e articulação entre financiamento, energia, infra-estruturas, capital humano e governação.
Continente Continua A Exportar Valor Para Fora
Um dos alertas mais fortes do relatório prende-se com a limitada retenção local de valor nas cadeias produtivas africanas.
Apesar do aumento do investimento industrial, grande parte da riqueza continua a escapar do continente devido à fraca integração vertical das economias africanas.
O documento cita exemplos como o cacau marfinense exportado sob forma de pó em vez de chocolate acabado, a bauxite guineense exportada em bruto e minerais estratégicos africanos processados fora do continente.
Mesmo na África Austral, onde se concentra parte importante do investimento industrial de maior valor, o relatório aponta limitações na integração local das cadeias de fornecedores.
Energia, Financiamento E Competências Continuam Críticos
Os relatórios identificam vários factores estruturais considerados essenciais para acelerar a industrialização africana.
Entre eles destacam-se acesso fiável e competitivo à energia, infra-estruturas industriais transfronteiriças, financiamento de longo prazo em moeda local, harmonização regulatória e desenvolvimento de competências técnicas.
Os autores alertam igualmente que as indústrias africanas precisarão acelerar processos de descarbonização para evitar futuras barreiras comerciais relacionadas com emissões de carbono impostas pelos mercados europeu e norte-americano.
Industrialização Volta Ao Centro Do Debate Estratégico Africano
O lançamento dos relatórios reforça o regresso da industrialização ao centro da agenda estratégica africana, num contexto em que o continente procura reduzir dependência de exportações primárias e fortalecer cadeias regionais de valor.
O Banco Africano de Desenvolvimento sustenta que a integração produtiva africana precisará ir além de reduções tarifárias superficiais, exigindo corredores económicos funcionais, infra-estruturas robustas e implementação efectiva da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA).
Fonte: O Económico






