InícioNacionalCrónicaA HORTA DO PRESIDENTE

A HORTA DO PRESIDENTE

Por: Sara Seda

Em Moçambique, as crises já não chegam sozinhas, vêm sempre acompanhadas de discursos serenos, pronunciados com aquele tom presidencial, de preferência calmo, patriótico e cheio de soluções que cabem melhor num provérbio do que numa política pública, que mistura esperança, paciência e uma criatividade política quase agrícola. Falta combustível? Planta-se tomate, subiu o custo de vida? Cultiva-se couve, a cidade tornou-se cara demais? Volta-se ao mato.

A “Horta do Presidente” não é aquela de terra fértil e irrigação moderna, mas uma horta simbólica, plantada nos discursos e regada com frases motivacionais, como se cada problema económico pudesse ser resolvido com uma enxada, boa vontade e uma fotografia oficial diante de uma mandioca sorridente. Uma horta onde florescem medidas rápidas, frágeis e quase sempre direccionadas ao cidadão comum, como se o povo fosse simultaneamente agricultor, adubo e terreno de todas as experiências políticas.

O mais interessante é que essa horta nunca é plantada nos jardins ministeriais. Nunca se vê deputado de enxada na mão a capinar no intervalo da sessão parlamentar, nenhum dirigente aparece a trocar a viatura oficial por transporte colectivo ou a reduzir as próprias regalias em nome do sacrifício nacional enquanto canta “produção local”. O sacrifício, em Moçambique, é um alimento reservado ao povo.

E pensar que o povo é “patrão”, ah! deve ser um tipo novo de patrão, daqueles que trabalha muito, decide pouco e vive pior que os empregados do sistema, é um patrão sem salário digno,

sem combustível, sem estrada, sem hospital e, às vezes, sem pão. Um patrão que sustenta o Estado e não prova os privilégios produzidos por ele.

As restrições, em Moçambique, funcionam como uniforme escolar: só o cidadão comum é obrigado a vestir, enquanto isso, a “Horta do Presidente” continua crescendo, já produziu discursos verdes, só ainda não conseguiu produzir soluções duradouras, talvez porque seja mais fácil pedir ao povo que plante cebolas do que arrancar pela raiz os privilégios que sufocam o próprio Estado.

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