InícioRevistaEconomiaBancos Centrais Procuram Alternativas, Mas O Dólar Continua Sem Substituto

Bancos Centrais Procuram Alternativas, Mas O Dólar Continua Sem Substituto

O dólar está a perder exclusividade, não centralidade. A crescente procura por ouro, euro e renminbi mostra que os bancos centrais pretendem reduzir riscos geopolíticos, cambiais e financeiros, mas nenhuma alternativa reúne, isoladamente, a liquidez, a profundidade de mercado, a convertibilidade e a infra-estrutura global da moeda norte-americana. Para África e Moçambique, a resposta mais racional não é uma desdolarização abrupta, mas uma diversificação gradual, alinhada com o comércio, a dívida, as importações e as necessidades efectivas de liquidez externa.

Os bancos centrais começaram a olhar para o dólar com menos entusiasmo, mas ainda não encontraram uma moeda capaz de assumir integralmente as funções que a divisa norte-americana desempenha no sistema financeiro internacional.

O inquérito Global Public Investor 2026, produzido pelo Official Monetary and Financial Institutions Forum, revela, pela primeira vez, uma intenção líquida de 3% dos gestores de reservas de reduzirem a exposição ao dólar nos próximos 12 a 24 meses. Quando o horizonte é alargado para dez anos, a intenção líquida de redução sobe para 8%.

A mudança é relevante porque, em edições anteriores, o dólar continuava a atrair intenções líquidas de aumento. Mas a dimensão do movimento permanece moderada: 74% dos inquiridos pretendem manter a sua exposição praticamente inalterada no curto prazo.

O que está a ocorrer não é uma fuga generalizada da moeda norte-americana. É uma procura cautelosa por alternativas parciais.

O estudo resume esta transição através de três expressões. A era do TINA — there is no alternative, ou “não existe alternativa” — estaria a ceder lugar ao TARA — there are reluctant alternatives, “existem alternativas relutantes”. Uma TIGA — there is a good alternative, uma alternativa realmente convincente — continua, contudo, ausente.

A mensagem central é que os bancos centrais não estão simplesmente a substituir uma moeda por outra. Estão a distribuir diferentes funções das reservas por vários activos: o dólar permanece como âncora de liquidez, o ouro assume o papel de protecção estratégica, o euro surge como principal alternativa institucional e o renminbi ganha importância nas economias mais ligadas comercialmente à China.

O Dólar Perde Quota, Mas Conserva A Infra-Estrutura Do Poder

Os dados mais recentes do Fundo Monetário Internacional mostram que o dólar representava 57,13% das reservas cambiais mundiais no primeiro trimestre de 2026, acima dos 56,42% revistos para o último trimestre de 2025.

O aumento trimestral não reflectiu necessariamente novas compras expressivas de activos norte-americanos. Segundo o FMI, aproximadamente metade da variação decorreu de efeitos de valorização cambial, depois de o dólar ter apreciado perante várias moedas durante o período.

O euro representava 20,03% das reservas, enquanto o renminbi correspondia a apenas 1,99%. As restantes moedas, incluindo yen, libra, dólares canadiano e australiano e franco suíço, possuíam posições bastante inferiores.

Estes números mostram duas realidades simultâneas.

A primeira é que a participação do dólar diminuiu significativamente quando comparada com os níveis superiores a 70% observados no início do século. A segunda é que continua a possuir quase três vezes a quota do euro e mais de 28 vezes a participação do renminbi.

A dominância torna-se ainda mais visível fora das reservas oficiais.

Segundo o Banco de Pagamentos Internacionais, o dólar esteve presente num dos lados de 89,2% de todas as transacções cambiais realizadas em Abril de 2025. Como cada operação envolve duas moedas, a soma das participações supera 100%, mas o indicador demonstra a centralidade da divisa norte-americana como moeda de intermediação.

Os dez pares cambiais mais negociados no mundo envolvem o dólar. O euro participou em 28,9% das operações e o renminbi, apesar do crescimento recente, em apenas 8,5%.

A moeda norte-americana beneficia, assim, de poderosos efeitos de rede. É utilizada porque bancos, empresas, governos, investidores, seguradoras e mercados de derivados já a utilizam em larga escala.

Quanto maior a rede, maior a liquidez. Quanto maior a liquidez, menores os custos de transacção. E quanto menores os custos, mais difícil se torna substituir a moeda dominante.

O Mercado De Activos Seguros Continua A Ser A Principal Fortaleza

A superioridade do dólar não depende apenas da dimensão da economia norte-americana. Assenta sobretudo na existência de um mercado de dívida pública profundo, líquido e acessível.

Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos permitem que bancos centrais movimentem milhares de milhões de dólares sem provocar alterações desproporcionais nos preços. Podem ser comprados, vendidos, utilizados como garantia, emprestados, objecto de operações de recompra e integrados em estratégias de gestão de liquidez.

Poucos mercados conseguem oferecer simultaneamente dimensão, diversidade de maturidades, transparência, instrumentos de cobertura e disponibilidade contínua de compradores e vendedores.

O dólar é igualmente a principal moeda do financiamento internacional.

Dados do Banco de Pagamentos Internacionais mostram que o crédito em dólares a mutuários não bancários fora dos Estados Unidos alcançou 14,3 biliões de dólares no final de 2025, depois de crescer 8,5% durante o ano. Nas economias emergentes e em desenvolvimento, o volume atingiu 4,3 biliões de dólares.

Esta dívida cria procura estrutural pela moeda. Empresas e governos que contraíram obrigações em dólares precisam de manter receitas, depósitos ou instrumentos de cobertura denominados na mesma divisa.

Para os bancos centrais, reduzir excessivamente a exposição ao dólar quando o país possui dívida, importações ou compromissos externos naquela moeda pode aumentar, em vez de reduzir, o risco financeiro.

A composição das reservas não deve, portanto, reflectir apenas preferências geopolíticas. Deve acompanhar as moedas em que o país importa, exporta, recebe financiamento e paga a dívida.

A Desdolarização É Mais Lenta Do Que O Debate Político Sugere

A expressão “desdolarização” ganhou força em discursos políticos, cimeiras internacionais e debates sobre uma ordem económica mais multipolar.

Todavia, a utilização da palavra pode criar a impressão de que existe um processo coordenado e acelerado de abandono do dólar. Os dados mostram uma realidade mais gradual e fragmentada.

Os gestores de reservas estão preocupados com os persistentes défices orçamentais dos Estados Unidos, o crescimento da dívida pública, o risco de inflação, a volatilidade cambial e a possibilidade de os activos financeiros serem utilizados como instrumentos de política externa.

O congelamento de reservas do banco central russo depois da invasão da Ucrânia reforçou a percepção de que activos considerados seguros do ponto de vista financeiro podem continuar expostos a risco jurídico e geopolítico.

Mas reduzir uma vulnerabilidade não elimina automaticamente outras.

Transferir reservas para uma moeda com menor convertibilidade pode reduzir a exposição a sanções norte-americanas, mas aumentar o risco de liquidez. Comprar activos de países aliados pode reduzir o risco político, mas concentrar excessivamente a carteira. Adquirir ouro pode proteger contra decisões estrangeiras, mas limitar a capacidade de efectuar pagamentos imediatos.

A gestão de reservas consiste precisamente em equilibrar segurança, liquidez e rentabilidade. Nenhum activo maximiza os três objectivos ao mesmo tempo.

Por isso, a diversificação tende a avançar através de pequenas alterações acumuladas ao longo de vários anos, e não de uma substituição abrupta.

Ouro É A Cobertura Preferida, Mas Não Uma Nova Moeda Mundial

O principal beneficiário da crescente desconfiança geopolítica tem sido o ouro.

No inquérito da OMFIF, 68% dos bancos centrais indicaram a diversificação como uma das razões para deter ouro, contra 61% no ano anterior. A protecção perante riscos geopolíticos foi mencionada por 51%, acima dos 45% registados em 2025.

A percentagem de instituições que possui ouro físico aumentou de 71% para 82%.

O inquérito de 2026 do World Gold Council reforça esta tendência. Entre 76 bancos centrais consultados, 89% esperam que as reservas oficiais mundiais de ouro aumentem nos próximos 12 meses e 45% — um máximo histórico do estudo — antecipam elevar as reservas da própria instituição.

Os bancos centrais adquiriram, em média, cerca de mil toneladas de ouro por ano durante os últimos quatro anos, aproximadamente o dobro da média anual observada na década anterior.

O ouro possui vantagens singulares. Não representa uma obrigação financeira emitida por outro Estado, não depende da solvência de um devedor, não pode ser criado por decisão de um banco central estrangeiro e, quando armazenado fisicamente no próprio país, apresenta menor exposição a sanções ou congelamentos internacionais.

Mas essas características também revelam as suas limitações.

O ouro não paga juros. O seu preço pode variar significativamente. Exige armazenamento, segurança, transporte, certificação e capacidade de realizar operações no mercado. Além disso, não é utilizado directamente para pagar a maioria das importações, liquidar a dívida ou intervir quotidianamente no mercado cambial.

O ouro pode substituir parte da função de reserva de valor do dólar. Não substitui com igual eficiência as suas funções de pagamento, financiamento e liquidez.

A tendência mais provável é, portanto, a sua consolidação como activo complementar e cobertura estratégica, e não como base exclusiva de uma nova ordem monetária.

O Euro Tem Escala Económica, Mas Falta-Lhe Um Tesouro Único

Entre as moedas, o euro é a alternativa mais próxima do dólar.

A área do euro possui uma economia de grande dimensão, comércio internacional relevante, instituições financeiras sofisticadas e uma moeda plenamente convertível. O euro já representa cerca de um quinto das reservas mundiais e é amplamente utilizado nas relações comerciais da Europa com África, Ásia e Médio Oriente.

O inquérito da OMFIF mostra uma intenção líquida de 17% dos gestores de reservas de aumentarem a exposição ao euro nos próximos dois anos. No horizonte de dez anos, o saldo líquido sobe para 21%, contra 12% no estudo anterior.

Contudo, a moeda europeia enfrenta uma limitação estrutural: não existe um activo soberano único, permanente e de grande escala equivalente aos títulos do Tesouro norte-americano.

Os bancos centrais podem comprar dívida da Alemanha, França, Itália, Espanha, instituições europeias e outros emissores. Mas estes activos apresentam riscos, classificações, liquidez e mercados distintos.

O resultado é uma fragmentação da oferta de activos seguros.

Quando questionados pela OMFIF sobre uma eventual transformação da União Europeia num emissor permanente e de grande escala de dívida segura, 50% dos inquiridos afirmaram que aumentariam a disponibilidade para deter activos de reserva em euros. Entre os respondentes aos quais a questão se aplicava directamente, a proporção atingiu 55%.

Isto significa que o maior obstáculo ao euro não é a falta de confiança na moeda, mas a arquitectura fiscal e política incompleta que a sustenta.

A emissão conjunta realizada através do programa NextGenerationEU criou uma referência importante. Porém, continua a ser um mecanismo temporário, enquanto vários Estados-membros resistem à mutualização permanente da dívida.

Se a Europa desenvolver um mercado unificado de activos seguros com escala comparável ao norte-americano, o euro poderá captar uma parcela significativamente maior das reservas globais.

Sem essa mudança, continuará a ser a principal alternativa, mas não um substituto integral.

Renminbi Cresce Com O Comércio, Mas Continua Limitado Pela Convertibilidade

O renminbi apresenta uma trajectória diferente.

A China possui uma economia comparável, em dimensão, à dos Estados Unidos, é o maior parceiro comercial de numerosos países e ocupa uma posição central nas cadeias globais de produção.

No entanto, a moeda chinesa representa apenas 1,99% das reservas oficiais mundiais. A discrepância entre o peso económico da China e a participação da sua moeda é uma das maiores do sistema monetário internacional.

O inquérito da OMFIF mostra que uma proporção líquida de 13% dos gestores de reservas pretende aumentar a exposição ao renminbi nos próximos 12 a 24 meses. No horizonte de dez anos, 32% dos respondentes antecipam reforçar as posições na moeda chinesa.

Os participantes esperam que o renminbi represente, em média, aproximadamente 5% das suas carteiras dentro de uma década.

A expansão deverá ocorrer sobretudo onde a China já possui relações comerciais, financeiras e de investimento profundas.

Países que importam equipamentos chineses, recebem empréstimos em renminbi ou exportam grandes volumes para aquele mercado possuem razões operacionais para manter reservas na moeda.

Mas o renminbi continua limitado por controlos de capitais, gestão administrativa da taxa de câmbio, menor transparência dos mercados e restrições à convertibilidade plena.

Um banco central precisa de ter confiança de que poderá vender rapidamente um activo, converter os recursos e transferi-los para qualquer contraparte quando surgir uma emergência.

Enquanto permanecerem dúvidas sobre a abertura e previsibilidade do sistema financeiro chinês, a moeda deverá ganhar espaço de forma selectiva, sem desafiar directamente o dólar em escala global.

África Está Mais Disposta A Diversificar Para Euro E Renminbi

As respostas regionais do inquérito revelam que a diversificação não ocorrerá de forma uniforme.

Entre os gestores africanos consultados, 42% manifestaram intenção de aumentar a exposição ao euro no curto prazo. Uma proporção semelhante indicou interesse no renminbi.

No horizonte de dez anos, 75% dos participantes africanos antecipam aumentar as posições em moeda chinesa, reflectindo a crescente importância da China no financiamento, comércio, infra-estruturas e investimento do continente.

Todavia, estes resultados devem ser lidos com cautela.

Representam intenções de um grupo de instituições e não significam que 75% das reservas africanas serão convertidas para renminbi. Também não indicam a dimensão dos aumentos previstos.

Um banco central pode declarar intenção de elevar a exposição e passar de 1% para 2% da carteira. A alteração seria estrategicamente relevante, mas continuaria limitada em termos absolutos.

A escala financeira também importa. Segundo a OMFIF, a região da Ásia-Pacífico detém aproximadamente 8,3 biliões de dólares em reservas, enquanto a África subsaariana possui cerca de 234 mil milhões.

Mesmo uma forte alteração percentual em África produziria um impacto global inferior ao de uma pequena mudança realizada pelos grandes detentores asiáticos.

A diversificação africana poderá, contudo, ter elevada importância regional. Poderá reduzir custos de transacção, facilitar o comércio com a China e a Europa e diminuir incompatibilidades entre as moedas das reservas e as dos pagamentos externos.

As Stablecoins Não Estão A Desdolarizar O Sistema — Estão A Digitalizá-Lo

Os activos digitais são frequentemente apresentados como uma possível alternativa às moedas tradicionais.

O inquérito da OMFIF mostra, porém, que 92% dos gestores de reservas ainda não investem em activos digitais. O interesse de longo prazo aumentou apenas de 10% para 13%.

As razões incluem volatilidade, risco tecnológico, incerteza regulatória, problemas de custódia e ausência de rendimento em vários instrumentos.

Mais importante ainda, a expansão das stablecoins não está a enfraquecer o dólar. Está a reproduzir a sua dominância em formato digital.

Segundo o Banco de Pagamentos Internacionais, 99,4% das stablecoins respaldadas por moeda fiduciária, medidas pelo valor de mercado, estavam indexadas ao dólar em Maio de 2026.

Estes instrumentos alcançaram uma capitalização aproximada de 320 mil milhões de dólares, mas continuam muito abaixo dos biliões existentes em depósitos bancários e títulos tradicionais.

Ao manterem reservas em títulos do Tesouro, depósitos e operações denominadas em dólares, as grandes stablecoins podem criar uma nova fonte de procura por activos norte-americanos.

A digitalização pode, portanto, ampliar o alcance internacional do dólar, especialmente em economias com moedas instáveis ou acesso limitado ao sistema bancário.

Uma verdadeira alternativa digital ao dólar exigiria stablecoins ou moedas digitais de banco central em euros, renminbi ou outras divisas com escala, confiança, convertibilidade e utilização internacional comparáveis.

Por enquanto, o ecossistema digital está mais próximo de reforçar a dolarização do que de a substituir.

A Diversificação Também Tem Custos

A decisão de diversificar reservas não é gratuita.

Cada nova moeda exige sistemas de negociação, custódia, avaliação de risco, contabilidade, gestão de garantias, contratos jurídicos e acesso a contrapartes.

Moedas menos líquidas podem apresentar maiores diferenças entre preços de compra e venda. Os mercados de derivados podem ser menores, tornando mais caro proteger a carteira contra variações cambiais.

Também existe um custo de fragmentação. Uma carteira repartida por muitas moedas pode reduzir o risco de concentração, mas tornar mais difícil mobilizar rapidamente um grande volume numa única divisa.

Para bancos centrais com reservas reduzidas, estas limitações são particularmente relevantes. Manter posições pequenas em numerosas moedas pode criar complexidade operacional sem produzir uma diversificação economicamente significativa.

A qualidade da diversificação depende, portanto, da capacidade institucional.

Grandes bancos centrais dispõem de equipas especializadas, plataformas sofisticadas e acesso directo aos principais mercados. Instituições menores precisam de avaliar se os benefícios adicionais compensam os custos de gestão.

Para Moçambique, A Questão Não É Escolher Um Bloco Monetário

Moçambique terminou 2025 com reservas internacionais brutas de aproximadamente 4,2 mil milhões de dólares, equivalentes a 5,7 meses de importações de bens e serviços quando excluídas as transacções dos grandes projectos, segundo o Banco de Moçambique.

A composição exacta por moeda não é divulgada publicamente com detalhe suficiente para avaliar o grau actual de diversificação. Mas a estrutura da economia fornece indicações sobre os riscos que devem orientar a gestão.

O País importa combustíveis e várias mercadorias cotadas internacionalmente em dólares. Uma parcela importante da dívida externa, dos financiamentos e dos contratos dos grandes projectos também utiliza a moeda norte-americana.

Simultaneamente, a África do Sul é um dos principais fornecedores de bens, tornando o rand relevante para a inflação importada e para as necessidades de liquidez. A Europa continua importante no comércio, cooperação, financiamento e investimento, enquanto a China possui uma presença crescente em equipamentos, infra-estruturas, crédito e relações comerciais.

Isto significa que a gestão de reservas não deve ser organizada como uma escolha política entre Estados Unidos, Europa, China ou África do Sul.

Deve ser construída com base num mapa objectivo das obrigações externas.

Reservas em dólares serão necessárias para combustíveis, dívida e intervenção cambial. Euros poderão cobrir pagamentos e financiamentos europeus. Rands poderão reduzir o risco associado às importações sul-africanas. Renminbi poderá ganhar importância à medida que aumentem contratos e pagamentos directos com a China.

O ouro poderá funcionar como reserva estratégica de longo prazo, mas não substituirá a liquidez necessária para financiar importações urgentes.

A Correspondência Entre Activos E Obrigações Deve Ser A Regra

Uma estratégia prudente de diversificação para Moçambique deverá começar por quatro perguntas.

Em que moedas estão denominadas as importações essenciais? Em que moedas se encontra a dívida pública externa? Que divisas entram através das exportações e do investimento? E quais são necessárias para estabilizar o mercado cambial em momentos de pressão?

A carteira de reservas deve procurar corresponder a estas necessidades.

Se uma grande proporção das obrigações vencer em dólares, reduzir excessivamente os activos naquela moeda cria um descasamento. Se as importações provenientes da África do Sul forem facturadas em rands, manter toda a liquidez em dólares expõe o País a movimentos entre as duas moedas.

Esta abordagem, conhecida como gestão integrada de activos e passivos, trata as reservas como protecção perante compromissos futuros, e não como uma carteira especulativa destinada a antecipar a moeda vencedora.

Para um país com necessidades elevadas de importação, escassez periódica de divisas e exposição a choques climáticos e energéticos, a liquidez deve permanecer prioritária.

A procura por maior retorno ou independência geopolítica não pode comprometer a capacidade de pagar combustíveis, alimentos, medicamentos, dívida e outros bens essenciais.

A Escassez De Divisas Torna A Liquidez Mais Importante Do Que O Simbolismo

O debate sobre diversificação ocorre num momento em que as empresas moçambicanas continuam a reportar dificuldades no acesso efectivo a moeda externa.

O Fundo Monetário Internacional afirmou, em Junho, que a persistência da escassez de divisas continua a limitar as importações e a actividade económica.

Neste contexto, a prioridade do País não deve ser apenas alterar a composição das reservas. Deve reforçar a sua geração e disponibilidade.

Diversificar um volume insuficiente não resolve a escassez estrutural. A solução passa por aumentar exportações, atrair investimento produtivo, receber receitas do turismo, desenvolver serviços logísticos regionais e assegurar que uma parcela adequada das entradas externas circule pelo sistema financeiro nacional.

O LNG poderá reforçar a posição externa ao longo dos próximos anos, mas também exigirá importações significativas durante a fase de investimento dos projectos.

O FMI prevê que as reservas diminuam gradualmente no cenário de médio prazo, à medida que cresçam as importações associadas aos grandes investimentos em gás. No final de 2025, as reservas cobriam 4,5 meses das importações totais, incluindo os grandes projectos.

A gestão deverá, por isso, equilibrar diversificação com preservação do volume necessário para enfrentar choques.

Três Cenários Para A Próxima Década

Num cenário central, a diversificação continuará lenta. O dólar perderá gradualmente alguma participação, mas permanecerá acima de metade das reservas mundiais. O ouro aumentará, o euro ganhará marginalmente e o renminbi avançará sobretudo nos países ligados à China.

Este é o resultado mais compatível com os dados actuais: mudança sem substituição.

Num segundo cenário, uma maior fragmentação geopolítica poderá acelerar a formação de blocos monetários. Países alinhados com a China e a Rússia poderão reduzir activos norte-americanos, enquanto aliados dos Estados Unidos reforçarão estruturas financeiras ocidentais.

Este modelo diminuiria algumas dependências políticas, mas poderia aumentar custos, fragmentar a liquidez e reduzir a eficiência do sistema internacional.

Num terceiro cenário, a Europa poderia criar um activo seguro conjunto, permanente e de grande escala. Esta mudança aumentaria fortemente a procura pelo euro e ofereceria aos bancos centrais uma alternativa com profundidade institucional comparável à dos títulos do Tesouro norte-americano.

O renminbi também poderia crescer mais rapidamente se a China liberalizasse o movimento de capitais, ampliasse a convertibilidade e reforçasse a previsibilidade dos seus mercados.

Estes dois desenvolvimentos — integração fiscal europeia e abertura financeira chinesa — constituem as mudanças mais capazes de desafiar estruturalmente o dólar. Nenhuma delas, contudo, parece imediata.

O Dólar Está Menos Amado, Mas Continua Indispensável

Os bancos centrais estão a reconsiderar o risco de manter uma parcela excessiva das reservas numa única moeda. O ouro, o euro e o renminbi oferecem respostas parciais a essa preocupação.

Mas cada alternativa resolve apenas uma parte do problema.

O ouro oferece protecção estratégica, mas pouca liquidez operacional. O euro possui instituições e convertibilidade, mas carece de um mercado unificado de dívida soberana. O renminbi acompanha o crescimento comercial da China, mas permanece condicionado pelos controlos financeiros. Os activos digitais continuam pouco utilizados e, na sua maioria, reforçam a presença do próprio dólar.

A tendência não aponta para o desaparecimento da moeda norte-americana. Aponta para um sistema mais diversificado, no qual o dólar continuará no centro, mas dividirá algumas funções com outros activos.

Para África, esta transição oferece a possibilidade de alinhar melhor as reservas com as relações comerciais e reduzir vulnerabilidades excessivas. Também exige prudência, porque os países do continente possuem menor volume de reservas e capacidade mais limitada para absorver custos de liquidez.

Para Moçambique, a estratégia mais inteligente não será abandonar o dólar para aderir a outra dependência. Será construir uma carteira equilibrada, capaz de financiar as importações, proteger o valor externo, responder à estrutura da dívida e acompanhar a crescente diversidade dos parceiros económicos.

O dólar deixou de ser visto como a única opção sem contestação. Mas, enquanto nenhuma alternativa reunir a mesma combinação de mercado, confiança, liquidez e infra-estrutura, continuará a ser a moeda que os bancos centrais podem desejar reduzir — sem ainda conseguirem dispensar.

Fonte: O Económico

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