Por: Lurdes Almeida
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) voltou a demonstrar a importância estratégica da barragem para a economia nacional, enquanto fonte de receitas externas e um dos principais pilares da segurança energética da África Austral. O desempenho alcançado no primeiro semestre de 2026 evidencia a capacidade de Moçambique transformar os seus recursos naturais em valor económico, num contexto global marcado pela transição energética e pelo aumento da procura por fontes de electricidade limpa.
Entre Janeiro e Junho de 2026, a HCB registou receitas de 263 milhões de dólares norte-americanos, impulsionadas pela produção de 6.399,02 gigawatts-hora (GWh) de energia eléctrica. Este resultado representa um crescimento de 13% face ao mesmo período de 2025 e superou em cerca de 10% a meta estabelecida para o semestre. No mesmo período, o resultado líquido ultrapassou os 115 milhões de dólares, valor ainda sujeito a auditoria.
Mais do que produzir electricidade, a HCB desempenha um papel relevante na geração de riqueza nacional. Cada megawatt produzido representa uma oportunidade de criação de receitas, aumento das exportações, arrecadação fiscal, distribuição de dividendos e reforço da capacidade de investimento.
Num país que pretende acelerar a industrialização, ampliar o acesso à energia e atrair investimento privado, a disponibilidade de electricidade a preços competitivos constitui uma vantagem estratégica. Sectores como mineração, indústria transformadora, agricultura irrigada, tecnologias digitais e grandes projectos de infra-estruturas dependem de um fornecimento energético seguro e estável.
A capacidade produtiva da HCB também fortalece a posição de Moçambique no mercado regional de energia, contribuindo para a integração económica da África Austral através do fornecimento de electricidade aos países vizinhos.
O desempenho alcançado no primeiro semestre reflecte igualmente a recuperação das condições hidrológicas da albufeira de Cahora Bassa, cujo armazenamento útil atingiu cerca de 56%, depois de um período marcado por níveis historicamente baixos. Este cenário reforça a necessidade de uma gestão sustentável dos recursos hídricos, bem como de investimentos contínuos em manutenção, inovação tecnológica e diversificação da matriz energética.
As receitas geradas pela HCB demonstram a capacidade de uma empresa nacional criar valor num sector estratégico e altamente competitivo. Para além do impacto financeiro directo, a empresa gera efeitos multiplicadores na economia, através da contratação de fornecedores nacionais, criação de oportunidades de emprego, apoio às comunidades locais e contribuição para o desenvolvimento económico da província de Tete.
Contudo, o maior desafio de Moçambique passa por transformar este potencial energético em maior desenvolvimento industrial. Apesar da importância das exportações de electricidade, o país precisa de criar condições para aumentar o consumo produtivo interno, estimulando o surgimento de fábricas, agro-indústrias, centros tecnológicos e novos investimentos.
Num mundo cada vez mais orientado para a redução das emissões de carbono e para a transição energética, a hidroeletricidade assume uma importância crescente. A procura global por energias renováveis tende a aumentar, impulsionada pela electrificação dos transportes, expansão tecnológica e necessidade de sistemas energéticos mais sustentáveis.
Moçambique possui vantagens competitivas neste domínio, graças aos seus recursos hídricos, localização estratégica na África Austral e potencial para integrar diferentes fontes renováveis, incluindo energia solar e eólica.
O desempenho da Hidroeléctrica de Cahora Bassa no primeiro semestre de 2026 confirma que Moçambique dispõe de activos estratégicos capazes de gerar riqueza, fortalecer a segurança energética e criar novas oportunidades de desenvolvimento. O desafio agora consiste em transformar esta capacidade energética numa base sólida para a industrialização, competitividade económica e melhoria das condições de vida da população.






