Por: Lurdes Almeida
A agricultura moçambicana enfrenta desafios estruturais que limitam a transformação da produção em rendimento económico, uma realidade particularmente evidente na província de Niassa. O aumento dos custos de transporte e do combustível tem dificultado o escoamento do feijão produzido localmente, reduzindo as margens de lucro dos agricultores e comprometendo o aproveitamento económico de uma cultura com elevado potencial comercial.
Esta situação revela uma contradição comum nas economias dependentes da agricultura: embora os produtores consigam aumentar a oferta, as limitações logísticas impedem que essa produção seja plenamente convertida em rendimento, investimento e desenvolvimento das comunidades rurais.
Niassa possui condições naturais favoráveis para a actividade agrícola, incluindo disponibilidade de terra, condições climáticas adequadas e conhecimento acumulado dos pequenos produtores. Entre as culturas com importância económica destaca-se o feijão, que contribui para a segurança alimentar, geração de rendimento familiar e dinamização das economias locais.
Contudo, o aumento dos custos de transporte tem alterado a estrutura económica da actividade. Para muitos agricultores, o valor obtido pela venda do feijão já não compensa os custos necessários para transportar a produção até aos principais centros de comercialização.
Quando o custo de acesso aos mercados aumenta, os produtores enfrentam decisões difíceis: aceitar preços menos favoráveis, reduzir as áreas cultivadas ou limitar a produção. Como consequência, verifica-se uma redução da competitividade agrícola e da capacidade de geração de rendimento no meio rural.
Na agricultura, a distância entre as zonas de produção e os mercados consumidores representa um factor determinante para a rentabilidade. Produtores localizados longe dos centros comerciais suportam custos adicionais que reduzem o valor económico final da sua produção.
Em Niassa, onde várias zonas agrícolas encontram-se distantes dos principais mercados, a logística assume um papel decisivo na competitividade do sector. O aumento do preço do combustível reflecte-se directamente nos custos de transporte, afectando não apenas os agricultores, mas também transportadores, comerciantes, consumidores e empresas ligadas ao processamento agro-industrial.
Uma agricultura competitiva depende de uma combinação de factores, como acesso a sementes de qualidade, assistência técnica, financiamento, sistemas de armazenamento e mercados eficientes. Sem uma rede logística adequada, mesmo uma produção elevada pode perder valor económico antes de chegar ao consumidor.
Um dos principais desafios do sector agrícola moçambicano consiste em ultrapassar a ideia de que aumentar a produção é suficiente. A agricultura moderna exige uma cadeia de valor integrada, onde produção, armazenamento, transporte, processamento e comercialização funcionam de forma articulada.
Se os custos de transporte continuarem a aumentar sem respostas estruturais, Niassa corre o risco de produzir alimentos sem conseguir transformar plenamente essa produção em riqueza para as comunidades. A dificuldade de acesso aos mercados pode desencorajar novos investimentos, reduzir o rendimento das famílias rurais e limitar a participação dos pequenos produtores nas cadeias comerciais.
A solução para este desafio não deve depender apenas de medidas temporárias de redução dos custos de combustível. É necessário implementar estratégias estruturais capazes de diminuir os custos logísticos e aumentar a competitividade agrícola.
Entre as medidas prioritárias destacam-se:
- melhoria das estradas rurais e das vias de ligação aos mercados;
- expansão das infra-estruturas de armazenamento;
- incentivo à instalação de unidades de processamento agrícola;
- fortalecimento das associações de produtores;
- criação de mecanismos de ligação entre agricultores e compradores;
- promoção de investimento privado na cadeia de valor do feijão.
A transformação local do feijão representa uma oportunidade estratégica para aumentar o valor económico gerado na província. Em vez de comercializar apenas matéria-prima, Niassa pode desenvolver actividades de selecção, embalagem, processamento e distribuição, criando novas oportunidades de emprego e aumentando o rendimento dos produtores.
Num contexto em que Moçambique procura reduzir a dependência de importações alimentares e fortalecer a produção nacional, o desenvolvimento de cadeias agrícolas competitivas deve ser encarado como uma prioridade económica. O futuro da agricultura em Niassa não depende apenas da capacidade de produzir mais feijão, mas da criação de uma cadeia económica eficiente, capaz de transformar a produção em rendimento, emprego e desenvolvimento sustentável. Uma agricultura forte começa no campo, mas concretiza-se quando o produto chega ao mercado com valor económico para todos os intervenientes.






