Por: Sara Seda
Em Moçambique existe um carro no estado “txova xita duma” (empurra que vai andar) que, na verdade, nem anda: parece estar há décadas num grande empurrão colectivo. Quando não são os donativos, são os parceiros internacionais a dar “forcinha”; quando não são os parceiros, são os ajustes estruturais; quando não são os ajustes, são as promessas; e quando tudo falha… empurra-se outra vez.
“Txova xita duma”, o país é esse carro, ou melhor, esse carro é o país. Está ali, parado na estrada da história, cheio de poeira, com motor fraco, mas com promessas. O curioso é que esse carro representa muito bem o país, e o mais impressionante é que já nem há grande fé no mecânico. Há mecânico, sim, mas parece daqueles que gostam mais de olhar o motor do que de o arranjar; diz sempre: “Vamos acompanhar a situação”. Enquanto isso, a ferrugem deixou de ser um problema técnico e passou a ser um estilo de vida.
Cada crise é uma oportunidade de demonstrar criatividade. Falta combustível? Planta-se uma horta no quintal. Produção local? Viva, terra fértil abandonada há décadas! Parece que só quando o país engasga com a própria realidade é que surgem soluções que estavam ali desde o tempo em que o rádio ainda falava sozinho.
Enquanto isso, no banco do motorista, os governantes sorriem com ar tranquilo, pneus novos, ar-condicionado ligado e subsídios gordos como travesseiros; lá fora, na poeira, os cidadãos
empurram, suam, fazem força e continuam a ouvir promessas. E assim segue o país-carro com o povo destinado a empurrar eternamente, celebrando cada milímetro conquistado com esforço, coragem e um riso amargo.





