InícioRevistaSociedadeDEVOLVER O ENTUSIASMO AO PROJECTO DE CONSTRUIR UM PAÍS PRÓSPERO

DEVOLVER O ENTUSIASMO AO PROJECTO DE CONSTRUIR UM PAÍS PRÓSPERO

Por: Osmane Nala 

Moçambique precisa recuperar uma ideia simples, mas decisiva: nenhum país prospera quando a sociedade perde a confiança no futuro. A prosperidade não nasce apenas da abundância de recursos naturais, da extensão da terra arável, da costa marítima, do gás, da energia ou dos corredores logísticos. Nasce, sobretudo, da convicção colectiva de que vale a pena trabalhar, investir, estudar, inovar, cumprir regras e participar na construção de um destino comum.

Durante demasiado tempo, o debate nacional tem oscilado entre o pessimismo paralisante e o optimismo declarativo. De um lado, acumulam-se frustrações legítimas: pobreza persistente, desigualdades territoriais, desemprego juvenil, baixa produtividade, fragilidade institucional, corrupção, insegurança em algumas regiões e dificuldade em transformar o crescimento económico em bem-estar concreto. Do outro lado, repete-se a promessa de um país rico em potencial, mas frequentemente pobre em resultados visíveis para a maioria dos cidadãos.

É neste intervalo entre o potencial e a realização que se perdeu parte do entusiasmo nacional. E é precisamente aí que ele deve ser reconstruído.

O entusiasmo não é ingenuidade: é energia estratégica

Falar em devolver entusiasmo ao projecto de construir um país próspero não significa ignorar os problemas. Pelo contrário: significa reconhecê-los com maturidade e enfrentá-los com senso de responsabilidade. O entusiasmo público não deve ser confundido com propaganda, com euforia artificial ou com discurso triunfalista. Deve ser entendido como uma energia cívica indispensável para mobilizar instituições, empresas, comunidades, jovens, profissionais, académicos e famílias em torno de objectivos concretos.

Um país sem entusiasmo colectivo torna-se administrativamente funcional, mas politicamente frio; economicamente activo, mas socialmente descrente; rico em planos, mas pobre em mobilização. Pode aprovar estratégias, anunciar reformas e inaugurar projectos, mas dificilmente consegue gerar o compromisso profundo que transforma políticas públicas em mudanças reais.

A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 coloca Moçambique perante um horizonte de longo prazo. Mas nenhuma estratégia, por mais bem desenhada que seja, terá impacto se não for apropriada pela sociedade como um verdadeiro contrato nacional de transformação. Planificar é necessário; mobilizar é indispensável.

O país precisa de voltar a acreditar no mérito, na produção e nas instituições

A prosperidade exige confiança. Confiança de que o esforço compensa. Confiança de que o Estado protege, regula e serve. Confiança de que a lei se aplica de forma previsível. Confiança de que o investimento produtivo é valorizado. Confiança de que a juventude tem lugar na economia. Confiança de que a riqueza nacional não será capturada por poucos, mas sim convertida em oportunidades amplas.

O país não pode continuar a depender de ciclos de esperança associados a megaprojectos, eleições, conferências ou à descoberta de recursos naturais. A experiência mostra que os recursos podem aumentar o produto interno bruto sem alterar substancialmente a vida das pessoas, se não houver ligações com a economia local, empregos dignos, qualificação profissional, transparência fiscal, boa gestão pública e fortalecimento das pequenas e médias empresas.

Por isso, devolver entusiasmo ao projecto nacional implica mudar o centro da conversa: de uma economia que espera pela grande oportunidade externa para uma economia que cria oportunidades internas; de um Estado que promete para um Estado que entrega; de uma juventude que aguarda emprego para uma juventude que participa na produção, na inovação e no empreendedorismo; de uma cidadania resignada para uma cidadania exigente e construtiva.

A crítica necessária: não basta crescer, é preciso transformar

O crescimento económico só se torna politicamente legítimo quando produz uma transformação social perceptível. Se a agricultura continua pouco produtiva, se o emprego formal permanece limitado, se a informalidade domina a vida económica, se a escola não prepara suficientemente para o trabalho, se os serviços públicos não melhoram e se as assimetrias regionais persistem, então o discurso sobre prosperidade perde credibilidade.

A pergunta central não deve ser apenas quanto Moçambique cresce, mas quem beneficia, onde se criam empregos, que sectores ganham produtividade, que empresas nacionais se fortalecem e que famílias saem efectivamente da vulnerabilidade. Um país próspero não é aquele que apenas exporta recursos; é aquele que cria competências, produz valor, diversifica a economia e distribui oportunidades de forma mais equilibrada.

Esta crítica é fundamental porque o entusiasmo verdadeiro nasce da evidência. As pessoas acreditam quando veem estradas que reduzem o isolamento, escolas que ensinam melhor, hospitais que respondem com dignidade, serviços públicos que funcionam, tribunais que protegem direitos, mercados que remuneram a produção, crédito que chega ao empreendedor e políticas que sobrevivem aos ciclos políticos.

Devolver entusiasmo é fazer da juventude protagonista

Não há projecto de prosperidade sem juventude. A maior força transformadora de Moçambique está na sua população jovem, mas também aí reside um dos maiores riscos: se essa energia não encontrar educação relevante, formação técnica, emprego, acesso à tecnologia, financiamento e espaços reais de participação, pode converter-se em frustração social.

Devolver entusiasmo significa dizer aos jovens que o futuro do país não é uma promessa distante, mas uma tarefa concreta na qual têm lugar. Isso exige políticas de emprego orientadas para os sectores produtivos, ligação entre a educação e o mercado, incubação de negócios, valorização da formação profissional, digitalização inclusiva e uma cultura pública que premie a competência, a integridade e o trabalho.

Um país que desvaloriza os seus jovens compromete o seu futuro. Mas um país que lhes confere responsabilidade, instrumentos e confiança cria uma geração capaz de transformar potencial em riqueza real.

Um novo pacto de confiança nacional

O entusiasmo em torno da construção de um país próspero só regressará se houver um pacto claro entre o Estado, a sociedade e o sector privado. Esse pacto deve assentar em cinco compromissos essenciais: governação íntegra, estabilidade institucional, investimento produtivo, inclusão social e prestação de contas.

Ao Estado cabe criar previsibilidade, simplificar procedimentos, combater a corrupção, assegurar justiça económica e canalizar recursos para prioridades que elevem a produtividade nacional. Ao sector privado cabe investir, inovar, formalizar, gerar empregos dignos e estabelecer ligações com produtores locais. À sociedade civil, à academia, aos media e às comunidades cabe fiscalizar, propor, participar e manter viva a exigência democrática.

Este pacto não deve ser retórico. Deve traduzir-se em metas verificáveis, indicadores públicos, comunicação transparente e consequências pelo incumprimento. A confiança reconstrói-se quando a palavra pública volta a ter peso e os resultados deixam de ser promessa para se tornarem experiência quotidiana.

O país precisa de voltar a apaixonar-se pelo seu próprio futuro, não por ingenuidade, mas por responsabilidade histórica. Construir um país próspero exige mais do que recursos, discursos ou planos. Exige confiança, trabalho, instituições, produtividade, justiça, inclusão e liderança orientada a resultados.

Devolver entusiasmo ao projecto nacional é devolver aos cidadãos a certeza de que o país pode melhorar sem deixar ninguém para trás; é transformar o potencial em oportunidade, a riqueza natural em prosperidade partilhada e a esperança em compromisso colectivo.

O desafio da nossa geração é claro: construir um Moçambique que evolua hoje sem hipotecar o amanhã. Um país onde o entusiasmo não seja apenas emoção, mas método; não seja apenas promessa, mas disciplina; não seja apenas sonho, mas um projecto nacional de prosperidade.

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