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Disputa Pelo Ouro Intensifica-Se Na África Ocidental À Medida Que Os Preços Disparam E Empresas Activam Drones Contra Mineração Ilegal

Questões-Chave

Num contexto de preços recorde do ouro, superiores a 3.300 dólares por onça, a África Ocidental vive uma escalada de tensões entre empresas mineiras formais e mineiros artesanais, também conhecidos como “wildcat miners”. A situação tem motivado o uso crescente de drones, vigilância armada e apelos ao envolvimento militar, revelando os riscos económicos, sociais e de segurança que acompanham o novo ciclo de valorização do ouro.

Na vasta mina de Tarkwa, operada pela Gold Fields no sudoeste do Gana, os céus tornaram-se palco de uma nova forma de vigilância: drones equipados com câmaras percorrem as florestas e encostas à procura de intrusos. A detecção recente de vestígios de mineração ilegal — roupa abandonada, escavações frescas e águas contaminadas com mercúrio e cianeto — revelou a acção de mineiros informais que operam à margem das concessões legalmente estabelecidas.

Em resposta, as empresas mineiras têm accionado equipas de intervenção rápida, muitas vezes acompanhadas por forças policiais armadas, numa tentativa de travar o avanço de operações que colocam em risco a produção, o ambiente e a segurança laboral.

Conflito Em Ascensão: Ouro E Tensão Social

De acordo com analistas e executivos ouvidos pela agência Reuters, pelo menos 20 mineiros informais perderam a vida desde o final de 2024, em confrontos com segurança privada ou forças do Estado em minas pertencentes à Newmont, AngloGold Ashanti e Nordgold, entre outras. Nenhum trabalhador das empresas terá sido até agora ferido.

A tensão cresce à medida que a mineração artesanal, tradicionalmente associada à sobrevivência rural, evolui para um sector semi-organizado, com recurso a maquinaria pesada, financiamento externo — incluindo de operadores chineses — e exploração em larga escala.

Famanson Keita, habitante da região de Kedougou, no Senegal, explica: “Fomos deslocados das nossas terras com promessas de emprego e desenvolvimento. Hoje, os nossos jovens trabalham sem contrato, com salários baixos e sem estabilidade. Só a agricultura de subsistência não chega.”

Geopolítica E Pressões Económicas

Com os bancos centrais a aumentarem as reservas de ouro e tensões globais a fazerem do metal um activo-refúgio, há analistas que já projectam o ouro a 5.000 dólares por onça. Para Ulf Laessing, da Fundação Konrad Adenauer, “quanto mais sobe o preço do ouro, mais crescem os conflitos entre mineração industrial e informal.”

As autoridades do Gana têm intensificado a repressão, com centenas de detenções nos últimos meses — incluindo cidadãos chineses — e a destruição de equipamentos em zonas protegidas. Entre 2019 e 2023, Gana perdeu 229 toneladas de ouro artesanal para o contrabando, segundo a ONG Swissaid.

Militarização Do Setor: Empresas Pedem Tropas

Face à insegurança crescente, as empresas estão a gastar somas consideráveis em segurança. Uma mina no Gana gasta meio milhão de dólares por ano em medidas contra mineração ilegal. Outras, como a Nordgold, Barrick Gold e B2Gold, também reportam incursões frequentes.

A Câmara de Minas do Gana encabeça negociações com o governo para o destacamento regular de militares, cujo custo ronda 18 mil dólares diários por cada destacamento de 50 efectivos, segundo fontes da indústria. Burkina Faso e Mali seguem caminho semelhante.

Em paralelo, o regulador mineiro ganês criou uma sala de controlo com inteligência artificial que integra imagens de 28 drones e sensores instalados em escavadoras, com capacidade para desactivar remotamente equipamentos ilegais.

“É uma guerra que só podemos vencer com tecnologia e vontade política”, defende Sylvester Akpah, consultor do projecto de vigilância electrónica.

Impacto Social: Economia Informal Vs. Grandes Projectos

Os números sublinham a complexidade do problema: cerca de 10 milhões de africanos dependem da mineração informal, com 3 a 5 milhões apenas na África Ocidental, onde representam 30% da produção de ouro. Esta realidade desafia governos e empresas a encontrarem modelos de coexistência regulada, que mitiguem os riscos sociais, ambientais e económicos sem comprometer os meios de subsistência locais.

Adama Soro, presidente da Federação das Câmaras de Minas da África Ocidental, alerta: “Os mineiros informais estão a afectar os corpos minerais das minas industriais, o que encurta a vida útil das concessões e compromete o retorno do investimento.”

Fonte: O Económico

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