Por: Sara Seda
Há profissões que sem elas metade dos comícios morreria antes do segundo aplauso, uma delas é a do Mutuluke (intérprete). Basta um governante subir ao palco, pegar no microfone e começar a desfilar palavras como "implementação", "resiliência", "governação participativa" ou "fortalecimento institucional", para todos os olhos se virarem discretamente para ele.
O povo sabe que verdadeiro discurso começa quando o intérprete limpa a garganta e a língua portuguesa entrega a pasta e o mutuluke assume a reunião. Nos comícios, entre o discurso original e aquilo que chega ao ouvido da comunidade existe uma distância maior do que a EN1 inteira. Não por incompetência, pelo contrário, porque há palavras que simplesmente se recusam a atravessar a fronteira das línguas. E, quando não encontram passagem, o Mutuluke constrói uma ponte ali mesmo, com palavras improvisadas, provérbios emprestados e muita coragem.
No Sul, o político anuncia solenemente que temos de apertar o cinto. O intérprete olha para a multidão, observa uma senhora de capulana, um velho de sandálias gastas e um rapaz cuja calça já só vive da esperança. Pensa durante dois segundos e depois resolve salvar o discurso. Explica, em changana ou ronga, que o dirigente quer dizer que "agora é tempo de gastar menos para amanhã a panela cantar mais alto".
A multidão acena, o político continua, convencido de que todos compreenderam o rigor orçamental, aé que resolve complicar dizendo que precisamos de transparência governamental. O intérprete fecha um olho, coça a cabeça e traduz qualquer coisa que, para quem entende as duas línguas, soa mais ou menos assim: “O Governo diz que já não vai esconder o saco da farinha debaixo da cama”. Palmas fortíssimas, o governante sorri sem imaginar que acabou de prometer uma arrumação nacional.
No Centro, a história ganha outro tempero, as línguas sena e ndau têm um ritmo próprio, uma musicalidade que consegue transformar qualquer frase numa narrativa épica. O político declara que vai mobilizar recursos, o intérprete aquece a voz e cinco segundos depois, parece que está a anunciar a chegada de um exército, quem entende ambas a língua já está a morder os lábios para não rir.
Depois vem o Norte. Ah... o norte, ali o Mutuluke deixa de ser intérprete e transforma-se em contador de histórias. O dirigente lê um discurso preparado num gabinete com ar condicionado, frases certinhas, vírgulas disciplinadas, parágrafos impecáveis, mas quando o texto passa pelo filtro do emakhuwa ou do yao, renasce completamente. "Boa governação" vira um pai que reparte a mandioca por todos os filhos, "coordenação institucional" passa a ser três vizinhos que empurram juntos uma carroça atolada. O público explode em gargalhadas, logo depois, aplaude, não necessariamente porque compreendeu o discurso original, porque compreendeu a intenção.
O Mutuluke mede o sucesso da tradução pelo movimento das cabeças, pelo coro espontâneo de "eeeh!", pela gargalhada colectiva, pelo silêncio certo na hora certa. No fim do comício, o político entra na viatura convencido de que fez um discurso memorável, todavia, quem verdadeiramente carregou o país de uma língua para outra foi aquele homem ou aquela mulher que ficou no palco a traduzir entre um aplauso, uma gargalhada e uma nuvem de poeira, sem medalhas, sem fotografia oficial e sem direito a conferência de imprensa.






