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ETIÓPIA: UMA NAÇÃO QUE JÁ NÃO ESPERA POR AJUDA

POR: ten-coronel Manuel Bernardo Gondola

Por muitos anos, nos 'ensinaram' que o sucesso de um país pobre em se desenvolver economicamente dependia de fazer 'negócios' com os Estados Unidos (EU) e com países europeus. Mas uma nação africana 'veio mostrar' que as coisas não são bem assim. A Etiópia, um dos poucos países africanos que não foram colonizados por europeus e que 'venceu' o exército colonialista italiano no final do século XIX, passou décadas marcada pela fome extrema e pela guerra. Hoje, porém, é uma das nações africanas que mais cresce economicamente e no campo social. O país está, rapidamente, se enchendo de fábricas.

Sua capital, Adis Abeba, é conhecida pelos seus arranha-céus. Houve um significativo aumento na urbanização e um aumento de [20] anos na expectativa de vida. A renda per capita mais que triplicou e o país consegue se desenvolver sem vender petróleo ou grandes quantidades de minérios. Não se “sustenta” por alianças com países europeus, nem com a União Europeia ou os EU. E o facto interessante é que a Etiópia nem ao menos tem saída para o mar. Hoje, o país não está mais apenas sobrevivendo, mas está prosperando.

Sendo assim, qual é o segredo do crescimento etíope?

Por décadas, a Etiópia foi “símbolo” de dificuldades, guerras, fome e instabilidade política, o que a tornou um dos países mais 'dependentes' de ajuda externa na África. A fome 'devastadora' dos anos 19[80], que chocou o mundo inteiro, foi um 'ponto de virada' que reforçou a ideia de uma África como continente carente de salvação. No entanto, desde então, a Etiópia 'reescreveu' a sua história, passando de uma nação dependente de ajuda estrangeira para um país que conduz o seu próprio desenvolvimento, embora ainda enfrente muitos desafios.

Entre 20[04] e 20[19], o crescimento médio anual do PIB foi de cerca de 10%, superando muitas nações em desenvolvimento. Em 19[93], a expectativa de vida na Etiópia era de 46,5 anos e o PIB per capita era inferior a 200 dólares. Já em 20[23], a expectativa de vida subiu para 67,3 anos, e a renda per capita superou os 15[00] dólares.

Mesmo diante de desafios globais, como a pandemia da COVID-19 e conflitos regionais, a Etiópia demonstrou notável resiliência econômica. O rápido crescimento foi 'impulsionado' por um modelo de desenvolvimento liderado pelo governo, que enfatiza grandes investimentos em agricultura, manufactura e infraestrutura de energia, comunicação e transporte. Ao contrário de muitos países africanos que dependem fortemente da exportação de recursos naturais, a Etiópia tem 'focado' na construção de uma economia diversificada, capaz de sustentar a prosperidade a longo prazo.

Um dos principais motores da transformação etíope tem sido o impulso à industrialização. O Governo investiu pesadamente em parques industriais projectados para atrair fabricantes estrangeiros, especialmente nos sectores têxtil e do vestuário. Para isso, foram contraídos empréstimos junto a Bancos chineses, que, diferentemente das organizações financeiras ocidentais (imperialistas), não exigem que os etíopes façam mudanças sociais ou políticas para receber crédito. A única coisa que os chineses querem, depois de concederem um empréstimo, é que o valor seja devolvido a uma taxa de juro estabelecida.

Com o dinheiro emprestado, o Governo etíope 'contrata empresas' da construção civil para criar estradas, nivelar terrenos e ampliar a rede eléctrica, criando zonas industriais. Por sua vez, empresas da China, Turquia e Índia instalam suas fábricas na Etiópia, beneficiando-se do baixo custo da mão de obra e de incentivos governamentais, geralmente fiscais

Já o empréstimo feito com a China é pago em parte pela receita fiscal gerada pelos impostos cobrados das empresas estrangeiras que se instalam na Etiópia, isso acaba criando um ciclo extremamente vantajoso para todos os envolvidos. A China empresta o dinheiro e o recebe de volta com juros. O Governo etíope 'promove' o desenvolvimento de infraestrutura e a geração de empregos, garantindo arrecadação suficiente para custear gastos governamentais e pagar suas dívidas. Já o cidadão etíope ganha um emprego e experiência profissional.

Esse triângulo faz com que mais empresas venham de fora. A Huajian, do sector de calçados e couros, foi uma das primeiras e é uma das maiores fabricantes chinesas na Etiópia. O Jansu Sunshine Group investe na produção de tecidos e roupas dentro do país.  As turcas AYKA ADDIS Textile, Akadem Textil e Sain Dima produzem vestuário e exportam para a Europa e para os EU. Coisa semelhante fazem na Etiópia as indianas Arvind Limited, Raymond Group e Canoria Africa. Os trabalhadores produzem roupas e calçados que depois são vendidos para marcas internacionais como H&M, PVH e Levis. Estas vendem os produtos etíopes em suas lojas espalhadas pelo mundo

A China Communications Construction Company 'construiu' a ferrovia Adis Abeba-Djibutí e outras infraestruturas industriais. A referida ferrovia tem sido de extrema importância para o escoamento da produção etíope; já que a Etiópia não possui saída para o mar, ela utiliza a infraestrutura portuária do Djibutí para exportar.

A chinesa ZTE Corporation, além de desenvolver uma rede que fornece acesso à internet localmente, também fabrica alguns de seus aparelhos eletrónicos no país africano. Outras empresas chinesas estão contratando milhares de etíopes e aplicando tecnologias de irrigação, plantio e colheita de produtos agrícolas, o que permitiu que a Etiópia se tornasse uma grande potência na produção de café. O investimento chinês também faz com que os etíopes produzam gergelim, exportado para a China, Israel e países do Médio Oriente. Já lentilhas, grão-de-bico e ervilhas secas são exportados para a Índia, Paquistão e Emirados Árabes Unidos.

A Etiópia possui uma das maiores populações de abelhas da África. Hoje ela exporta mel orgânico e cera de abelha para mercados premium na Alemanha e nos EU. O país também é o segundo maior exportador de flores da África, atrás somente do Quénia. Empresas indianas, holandesas e israelitas compram rosas e cravos da Etiópia e os vendem sob suas próprias marcas, principalmente na Europa.

A ambição do país de se tornar o polo manufactureiro da África é evidente nos esforços para ir além da agricultura e criar empregos em indústrias de maior valor agregado. Essa estratégia reflete o modelo económico adotado por países como China e Vietname, que transformaram as suas economias por meio da industrialização. Com o tempo, não será de surpreender que os etíopes estejam a abrir as próprias empresas no campo da indústria.

O desenvolvimento da infraestrutura também desempenhou um papel crucial na ascensão económica da Etiópia. A Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), localizada no rio Nilo Azul e a maior hidroelétrica da África, “simboliza” a determinação do país em alcançar a independência energética e se tornar um fornecedor regional de energia. Ela já corresponde a uma parte substancial da geração de energia elétrica nacional. Com esses avanços, a Etiópia não está apenas crescendo, mas está 'construindo' as bases para desafiar as estruturas do poder económico global e redefinir o futuro da África. No centro dessa visão está a ambição de se tornar a potência industrial do continente africano.

Nos céus, a Etiópia também tem a ambição de ter maior participação no transporte de passageiros em voos internacionais. A Ethiopian Airlines, a maior companhia aérea da África e 100% do Governo, expandiu a sua rede global para mais de 140 destinos internacionais em cinco continentes, inclusive com voos conectando Maputo com o resto do mundo a preços consideravelmente competitivos.  O Aeroporto Internacional de Adis Abeba agora “compete” com o de Dubai, recebendo um novo terminal. A Ethiopian Airlines, que possui uma frota de mais de 150 aeronaves, adquiriu aviões de última geração, como o Boeing 787 Dreamliner e o AIRBUS A350. Ela possui a sua própria Academia de Aviação, que forma pilotos, engenheiros e tripulantes.

Nos últimos anos, a Etiópia também passou a adotar a tecnologia e a inovação como pilares do crescimento económico. O setor de "fintech" em particular tem mostrado um crescimento impressionante, com "start-ups" desenvolvendo soluções de banco móvel para atender a uma população em grande parte sem acesso a serviços bancários. Serviços financeiros digitais, dinheiro móvel e plataformas de "comércio eletrónico" estão mudando rapidamente a forma como os etíopes fazem negócios.

Essa transformação digital está ajudando a modernizar a economia, criando novas oportunidades para empreendedores e melhorando o acesso a serviços financeiros em todo o país. A ascensão económica etíope não diz respeito apenas a números impressionantes, trata-se também de "redefinir" o seu papel na ordem global, o que inclui desafiar a influência ocidental tradicional.

Durante décadas, assim como muitas nações africanas, a Etiópia "dependeu" fortemente de ajuda, empréstimos e apoio político do ocidente. Nos últimos [10] anos, no entanto, o país passou por uma mudança estratégica, buscando parcerias internacionais mais diversificadas, especialmente com a China, a Rússia e países do Médio-Oriente. Essa "reorientação" permitiu reduzir a dependência em relação ao ocidente e trilhar o seu próprio caminho, ao mesmo tempo que se focava no BRICS.

A Etiópia entrou para o BRICS como parte de uma 'estratégia' para reduzir sua dependência do Ocidente e 'fortalecer' sua autonomia geopolítica, especialmente após tensões com os EU e a União Europeia (UE) durante o conflito na região do Tigré. O país busca acesso a novas fontes de financiamento para infraestrutura e industrialização, como o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, além de aprofundar seus laços com parceiros-chave como China, Índia e Rússia, que já são grandes investidores na Etiópia.

Com mais de 120 milhões de habitantes e abrigando a sede da União Africana, a Etiópia representa um peso político relevante no continente africano e também reforça a representatividade africana dentro do bloco. Além disso, a sua adesão reflete o desejo de apoiar uma ordem mundial multipolar e impulsionar o comércio e a cooperação Sul-Sul, aliando-se a um grupo mais favorável à industrialização, à infraestrutura e ao desenvolvimento independente de condicionalidades políticas impostas pelos países ocidentais.

Uma das formas mais significativas pelas quais a Etiópia vem “desafiando” a influência ocidental é ao se afastar de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No passado, estas instituições desempenharam um papel central na “formulação” das políticas económicas etíopes, frequentemente impondo medidas de austeridade e ajustes estruturais. Mas, a Etiópia tem buscado cada vez mais evitar modelos financeiros impostos pelo ocidente, adotando em vez disso uma abordagem mais estatal e desenvolvimentista para o crescimento econômico.

Esta resistência à pressão econômica ocidental ficou mais evidente durante o conflito no Tigré, iniciado no final de 20[20]. À medida que o conflito se “intensificou”, o Governo etíope enfrentou crescente pressão diplomática de nações ocidentais, incluindo os EU e a UE, que pediam um cessar-fogo imediato e ameaçavam sanções. A Etiópia, no entanto, resistiu a esses apelos e optou por defender sua soberania, recusando-se a ceder às exigências externas.

Essa “postura” marcou um momento significativo na resistência da Etiópia à influência imperialista, demonstrando que o país está disposto a priorizar seus próprios interesses em detrimento das exigências das potências imperialistas.

Ainda que a ascensão económica da Etiópia seja notável, o caminho à frente não está livre de desafios. O país ainda possui uma elevada taxa de pobreza; além disso, a inflação tornou-se um problema significativo, afectando especialmente os consumidores no dia a dia.

Com o aumento do custo de vida, particularmente dos alimentos, cresce a “pressão” sobre o Governo para equilibrar o crescimento e a estabilidade social. Embora os esforços de industrialização tenham criado empregos, o ritmo de geração de vagas não acompanhou o rápido aumento da população em idade de trabalhar. Se essas questões não forem enfrentadas, podem, sim, “prejudicar” o dinamismo econômico do país.

Apesar desses desafios, o futuro da Etiópia oferece oportunidades significativas de crescimento. Uma das mais promissoras é a Área de Livre Comércio Continental Africana, que busca criar um mercado único de bens e serviços em toda África. Como uma das maiores economias do continente, a Etiópia tende a se beneficiar do aumento do comércio com seus vizinhos, ampliando ainda mais seu sector manufactureiro e criando novos vínculos económicos com todo o continente. Esse acordo pode também ajudar a reduzir a dependência de mercados externos, tornando o país mais autossuficiente e melhor preparado para enfrentar choques econômicos externos.

 

Manuel Bernardo Gondola

 

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